
Há 33 anos,a 25 de Abril, estava nesta casa há espera de um 'golpe de estado'. Era o que anunciava a BBC há um mês, ouvida à noite, nas escadas da entrada ou na sala de estar do vizinho. Que de golpes não percebia nada até à data, apesar de já ter lido no 'Paris Match' a história do rapaz Ian Palach que na Checoslováquia se imolou quando os soviéticos entraram em Praga. Tinha visto a fotografia dele a arder na rua, apanhado em primeiro plano pela objectiva do fotógrafo, com os tanques bolcheviques por fundo.
Que sabem as pessoas de dezasseis anos, todos quantos tinha, de golpes de estado? Absolutamente nada, mesmo que o pai insista em explicar, à mesa e quando se têm conversas de família sérias, que temos de estar preparados para o que vem aí. Por isso, daquela janela do meio, no primeiro andar, às seis e meia da manhã, ao ouvir o colega do meu pai dizer: "É o golpe de estado. Vai, vai dizer ao teu pai!...", obedeci, claro, como se obedece quando um adulto nos diz para dar um recado e espera que façamos exactamente como diz.
Da mesma janela, já manhã mais avançada, assisti ao burburinho na rua, às corridas de pessoas que se alarmavam e pareciam não saber exactamente o que fazer. Da janela, porque naquele dia não se queriam os filhos à deriva na rua, que era perigoso embora ninguém nos dissesse exactamente porquê.
Ouvia-se na rádio que a tropa tinha tomado um quartel qualquer na metrópole e que por isso tinha começado a revolução. "Um quartel como aqui?", quis saber o Custódio, o cozinheiro, a ouvir connosco o noticiário enquanto tomávamos o pequeno-almoço. Encolhi os ombros, que da metrópole percebia eu tanto ou menos do que ele.
Mais tarde e para minha grande frustração, o Félix, o criado mais novo, chegou da rua num alvoroço, com novidades. Juntámo-nos todos na sala de jantar, a minha mãe, as minhas irmãs, eu e o Custódio para o ouvir.
O Félix tinha ido ao mercado, às compras. E ao passar pela sede da PIDE estavam a chegar os Unimogs com soldados, que arrancaram à força os funcionários que lá estavam e os levaram presos. "Até senti uma coisa na cabeça e nas costas", dizia o rapaz, que ainda vinha a tremer.
Ficou então decidido que ninguém saía de casa sozinho ou, pelo menos, sem avisar que o ia fazer. A medida aplicava-se também ao Custódio e ao Félix, que tinham vindo connosco há um mês de Manica, junto à Rodésia. Como não eram da zona, o melhor era tomarem as mesmas cautelas que nós, não fosse alguém lembrar-se de retaliar por serem de fora e ainda por cima trabalharem em casa de um funcionário do Estado português.
A manhã passou-se assim, entre o que se ouvia na rádio, ao telefone e no que fulano e beltrano vinham até à porta contar. À tarde, com alguma tranquilidade reposta à força de o 'golpe' ser lá para a metrópole e a vida prosseguir, lá fui autorizada a dar uma volta pelas ruas.
O 25 de Abril, em Inhambane, foi sobretudo passado à sombra, em grupos à volta dos rádios a pilhas. E em perplexidade também, porque o golpe de estado passava-se a tantos milhares de quilómetros, que por força iria demorar a mesma distância a entrar-nos completamente na cabeça.
A noite, de novo à escuta na frequência da BBC, espantei-me com os detalhes, os nomes, as informações dos correspondentes estrangeiros em Lisboa. Havia com certeza dois golpes de estado: o daquela estação e o relatado pelas rádios em Moçambique.
