quinta-feira, 8 de março de 2012

tranquilidade

Deve ser desta luz estupenda, deste excesso de estímulo. Os portugueses, mais ou menos como os outros povos latinos, não têm o hábito da tranquilidade. Estão sempre em modo irrequieto e inquieto, com as vidas cheias de tragédias e imprevistos, sem o hábito do controlo e sem lhe reconhecer as qualidades.
A verdade é que, não perder a cabeça ou não deixar que os acontecimentos se apropriem de nós, condicionando-os à nossa vontade e não à contrária, nos concede pulso e domínio, controlo e menos enredos.
Basta o que basta e um pouco de tranquilidade dá-nos, pelo menos, oportunidade de pensar e de avaliar tudo sem estar debaixo de fogo. Não há que confundir paixão com o caos. Pelo contrário, a paixão tem sempre um objectivo, um fim, um objecto. E é nesse sentido que gosto de caminhar, não às cegas por acontecimentos e desenvolvimentos que me são impostos por outros.
Um estado previdente deveria obrigar os seus cidadãos a uma hora de recolhimento tranquilo por dia. E com isso certamente reduziria os seus orçamentos de saúde pública e de organização para níveis mínimos. Ninguém consegue levar uma vida satisfatória sem um momento de tranquilidade ajuizadamente aposto à sua rotina diária.

quarta-feira, 7 de março de 2012

excessos e défices

Por vezes, neste país soalheiro, falta o sol. Faltam também a alegria, a confiança, a necessidade de, quase em silêncio e mansamente, contemplar o que nos passa diante dos olhos. Talvez seja, precisamente, o excesso de luz, a constante exposição a esse estímulo que tanto atrai os nórdicos e nos deixa à beira de um ataque de nervos.
Há alturas em que é preciso distinguir entre a paixão e a agitação, a tranquilidade que se perde com a crença de que a falta de controlo é espontaneidade.
Não há mal algum em não agir permanentemente, não responder cegamente a todos os estímulos e impulsos. A vida pode muito bem ocorrer sem se assemelhar às estridências e sublinhados de uma ópera italiana.
Devia, sobretudo, evitar-se o barulho e a necessidade de transformar uma gota de água num maremoto. Mas para isso é preciso acreditar que nem tudo que se passa na nossa vida e à nossa volta é, necessariamente, um presságio do Apocalipse.
Por mim, ficava-me hoje pelo optimismo que nos imprimem os primeiros raios de sol e, avisadamente, guardar-me-ia do resto como de um excesso de medicação.

domingo, 4 de março de 2012

invictus

Para a mana Bomba e para o seu invictus viking G.:

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.


In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.


Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.


It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.


("Invictus" - by William Ernest Henley)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

esperança, coragem e êxito

Não há ninguém mais duro consigo mesmo que um português. De onde vem tamanho espírito crítico, não sei. Mas desconfio que, de tanta mistura de origens, se tornou fácil e natural apontar o dedo ao vizinho.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

combinações imprevisíveis

Os pais transmitem aos filhos o que acham correcto. A combinação disso e do que eles já trazem consigo é praticamente imprevisível. O importante é que todos estejam a fazer o melhor, no limite das suas capacidades e das circunstâncias. Mas o desafio também nos faz crescer, apesar dos ocasionais murros no estômago. A Natureza é como um gato à espreita da melhor oportunidade para se lançar sobre nós.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

mais mais abril

Zeca Afonso morreu há vinte e cinco anos. Foi professor no então Liceu Pêro de Anaia, na cidade moçambicana da Beira, e um dos professores a interrogar-me durante o exame de admissão. Tinha eu nove anos e vi-me grega quando, depois de me perguntar por que razão perdera Portugal o Brasil, descartou a minha resposta para me esclarecer: Mamou demais na vaca! Anos depois, à entrada no mesmo liceu, às sete da manhã para mais um dia de aulas, vimo-nos de súbito fechados dentro dos páteos e cercados pela PIDE e pela polícia. Alguém tinha pintado uma cruz suástica na entrada do liceu e continuado a obra pelos corredores, com frases dos Vampiros, de Zeca Afonso, escritos nas paredes. A vaca continua a ser explorada hoje e precisávamos de outro Abril em Portugal, na Grécia, na Europa e em muitos outros lugares. Venham mais cinco!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

grega e passada

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A língua portuguesa tem coisas muito peculiares. Será que a expressão vejo-me grega para já estava a anunciar a actual conjuntura?