quinta-feira, 14 de março de 2013

abraços e café

Ilustração: MaritaMorenoFerreira
Toda a gente gosta de abraços, assim à laia de cachecol fofo enrolado à volta do pescoço, confortável, quente, macio. Sensação boa, familiar, protectora. Até os oferecem na rua, momentos de boa vontade que são como bandeiras de alerta mais de quem oferece do que de quem recebe.
Pois a mim não me agradam os abraços vindos do nada, de gente desconhecida que acha natural irromper de repente pelos nossos meios metros de privacidade e forçar uma intimidade inexistente. Quem são esses santos da carência que de repente se envolvem nessa cruzada afectiva e esperam o apreciado retorno?
Bem sei que também é santo aceitar e entender a dádiva na sua verdadeira intenção, mas prefiro a zona de conforto do sofá e uma caneca de café quente, mais um abraço de quem de facto está perto de mim.
Que me perdoem os espontâneos abraçadores de rua, pois até aceito um abraço desconhecido vindo até a mim num momento de necessidade. Abraço também qualquer desconhecido noutros momentos igualmente necessários. Mas não me sinto confortável a receber abraços que me parecem mais gritos de ansiedade do que cachecóis afectivos.
Parece-me mais adequado trocar o abraço vindo do nada por um café quente e uma conversa vinda de pequenos nadas, antes de passar às trocas energéticas mais complexas. É o que me parece.

segunda-feira, 11 de março de 2013

queres?

Foto MMFerreira
Chega ali à beira-mar, saca o giz do bolso e escreve a sua declaração. Acrescenta-lhe um coração, não vá o objecto da sua inspiração trocar-lhe o sentido e, assim, pelo menos, o boneco não engana. Se bem que o sítio que escolheu seja, apesar de tudo, o local onde todo o mundo assenta os traseiros, sem cerimónia, sem ligar à mensagem rabiscada a branco na tábua do meio. É lá sítio para fazer uma declaração, aquele que serve para aparar os ditos cujos de todo o mundo... Se fosse eu, afinava, mas o autor da dita, nublado como devia estar pela cegueira da paixão, com certeza não perdeu tempo com isso. E até deve ter sido surpreendido pela questão logo levantada: então, uma declaração num sítio de assentar traseiros e, possivelmente, arejar alguns excessos gasosos intestinais? Quando se é simpático, apaixonado e essas coisas não se pensa assim e todos os meios são bons para um elevado fim. Portanto, queres namorar comigo? (coração) no assento de todos os back sides passeantes é uma fórmula tão boa como qualquer outra. Queres?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

gritos de ajuda

Michelle Obama teve direito a mais pano na parte superior do vestido na foto da cerimónia de atribuição dos Óscares distribuída no Irão. Em Angola, aquando da sua candidatura à presidência, Hillary Clinton foi interpelada por um estudante que queria saber o que o marido, Bill, pensava sobre o facto. Isabel Magalhães, do Movimento Ser Cascais, teve direito a um "tiro" na testa, barba farta, nome travestido para o masculino e um coração negro em lugar do "sem" partidos.
Continua enraizada a crença de que a política é coisa para homens de barba rija e perigosa para o sexo fraco. A mudança assusta, sobretudo quando feita no feminino e demarcada dos interesses estabelecidos.
O mais caricato é verificar como esse susto cresce de forma igual entre gente que não partilha a mesma visão solidária e reparadora do que aflige as sociedades actuais, e gente que, mesmo sofrendo ou por isso mesmo, não se concede o direito de mudar.
Em Cascais, Isabel Magalhães propõe um novo modelo: governo local de independentes, divorciados de filiações partidárias e outras. Ou seja, quer mostrar que governar sem o jugo do compromisso de grupos de interesses vários é o condimento essencial para mudar o desastroso estado de crise financeira e social. Quer arrumar a casa e provar que o dinheiro de todos é mais do que suficiente para transformar o concelho num exemplo a seguir. E que o que está mal é que o dinheiro de todos esteja, há décadas, a servir para enriquecer franjas parasitárias da sociedade.
No dia a seguir à inauguração informal da sede da sua candidatura, um cartaz lança um aviso à mudança. Um grafiteiro, provavelmente desempregado e sem perspectivas, desenhou os contornos dos medos colectivos no cartaz colocado à porta da sede. O vandalismo gratuito toma o lugar da esperança, e soa como um pedido de ajuda. Atacado o mensageiro e a mensagem, o que se segue?
A mudança assusta, sobretudo quem grita por ela.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

um sol devorador

Desenho MMFerreira
Sempre gostei do Sol, mesmo à noite, quando não se via. Imaginava-o escondido atrás das estrelas e viajava até lá, para o admirar. Melhor, mesmo, era saltar na Lua como os astronautas, embora a possibilidade de ficar cheia de poeira me apoquentasse de vez em quando. Ou então, quando passeava de bicicleta pela rua, logo de manhã, e punha a hipótese de a ver levantar voo na direcção do Sol, atraída pela sua força devoradora de mais e mais energia...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

babouchas

Escultura de Marita Setas Ferro
As Mulheres e as Babouchas é o nome da exposição da Vértice, nas Arcadas do Estoril, sobre as cómodas peças de pele características do Norte de África. Título interessante, que reuniu um grupo de artistas plásticas, com as suas interpretações das babouchas.
Desinteressante foi o inexistente trabalho da galeria e respectiva galerista, que aparentemente não valoriza a sua actividade a ponto de investir numa exposição que podia ter atraído o interesse de muita gente da zona e de fora.
Valeu o empenho das artistas, que desenvolveram uma série de curiosas ideias em torno do tema, como um par de babouchas acorrentadas, outro numa gaiola, babouchas com asas e outras abordagens interessantes.
A exposição vai, em Fevereiro, para o Porto e, em seguida, para Paris, cidades em que, esperemos, o trabalho possa ser divulgado e apreciado como na Vértice não foi possível.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

o novo ano

all rights by MMFerreira
Pode parecer pop, ligeiro e até infantil, mas vai ser assim o meu novo ano. Simples, alegre e feliz. O mesmo desejo a todos os outros, amigos e inimigos, indiferentemente.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

expectativas

Fim do ano, fim do mundo, natal, aniversário, fim-de-semana, férias, feriados. Datas, momentos, minutos, todos especiais, todos carregados de expectativas desmesuradas. Que não se verificam para a maioria das pessoas. E não é só porque são demasiado grandes e não têm nenhuma forma de se materializar, por magia, no momento, na hora ou no dia marcados. Não. É só porque não prestamos atenção e não tratamos de viver o presente, sem expectativas que nos situam no futuro, que ainda não existe e, por isso, não podemos gozar.
As expectativas são fantasias. O momento actual é que importa. Não é o fogo de artifício do fim do ano, as correrias para um natal em que esperamos todos sentir aquilo que desejamos, naquele dia, com aquelas pessoas, em circunstâncias que nunca correspondem às que imaginámos, porque não dependem de nós.
O aqui e agora superam tudo isso, mas a teimosia das expectativas insiste em afastar-nos sempre do momento que vivemos e que é o mais importante, o único que conta. Nunca ligamos ao que é importante e, o pior, é que educamos toda a gente para desligar do presente e concentrar a sua atenção num futuro que não existe e que não temos forma de prever ou moldar ao nosso gosto.