Mostrar mensagens com a etiqueta sardinhas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sardinhas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 16 de julho de 2020

santos e manjericos


"Santos Manjericos" - MMF 2020

Parece que já vou tarde para festejar os santos populares. Mas como ficam sempre os vasos e as recordações, há sempre tempo pretexto para confessar os amores e desamores com que as celebrações nos presenteiam.
O António é um perigo, como os bailes de carnaval. Se não nos precavemos, cai-nos pelo menos um namoro em cima. E, se isto tem que ver com a capacidade dos antigos de prever uma época de enrolanços, isso diz o suficiente sobre o nosso aparente domínio das emoções.
Os manjericos são uma gracinha, delicados e de cheiro agradável. Não se sabe bem como aguentam a brutalidade selvática das festas.
O João, que devia ser mais romântico e idílico, fica esquecido entre os vapores etílicos dos foliões e mais parece que os festejos se devem a um derby futebolístico do que à comemoração do apóstolo do amor.
Pedro, depois de tanta baderna, é o santo mais discreto, que enche toda a gente de receios com a chuva ou falta dela. 
É caso para dizer que, assim, nem os santos nos valem.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

altares e sardinhas


"Santo António de Lisboa, embora muito festejado e venerado como santo pelo povo, é menos conhecido como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro intelectual da Idade Média. Reveladora dessa cultura ímpar, é a sua obra escrita, cheia de beleza e densidade de pensamento, como nos testemunham os seus Sermões, autênticos tesouros da literatura e da história. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Bíblia. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos Padres da Igreja e dos autores clássicos. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como Poder, Direito e Justiça". José Antunes (fonte: Wikipédia)

Os milagres deste santo e de outros não se estendem às sardinhas, peixinhos que vão à vida nas brasas dos bairros típicos de Lisboa ou em Cascais, que o elegeu como patrono. 
Há umas décadas os peixinhos saltavam das redes para os assadores improvisados junto à praia do peixe, agora elevada à dos banhos do presidente nacional. A festa encaixotou-se em barraquinhas que vendem hot dogs e souvenirs, que duram tanto como os ensurdecedores concertos de verão. 
As casinhas dos pescadores também são promovidas a residências pitorescas para alugar à época e a vida segue, sempre com os milagres santificados do progresso imobiliário. 
As sardinhas, unidas, são comidas por muitos Antónios e vendidas como símbolos pitorescos do País dos santos populares. À beira-mar a festa é um sunset com cerveja e música pum-pum-pum, no interior chama-se arraial e recebe artistas pimba.
Quem é que precisa de tímidos milagres ao pé do foguetório da propaganda da festa e da alegria, a beber fruta empacotada em bolsinhas de plástico, detergentes que nos envolvem com aromas descritos por apolos depilados que estalam os dedos à máquina da roupa, de carros de ficção à mão de umas quantas prestações e pensos higiénicos que transformam as jovens em artistas de circos psicadélicas?
A vida é uma festa e a ressaca é tramada. As sardinhas vão para o velho altar dos sacrifícios, com grinaldas e balões, cânticos e muitas palmas. Arraial, ó lusa gente...