quarta-feira, 14 de julho de 2010

equilíbrios inimitáveis


Um simples passeio pela rua pode promover encontros destes, com uma imagem estampada a spray na parede de um prédio devoluto. Uma fracção de história da cidade de braço dado com uma moderna forma de expressão, uma combinação a que é impossível resistir. Se ao menos fôssemos capazes de reproduzir na vida prática todo o sentido que se imprime a um conjunto artístico como este...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

deixa o prolongamento electrónico dos meus neurónios em paz!



Tinha para aí quinze anos quando alguém se lembrou de me emprestar o livro How to Win Friends and Influence People, do Dale Carnegie. Na altura, sob o cerrado ataque hormonal típico de qualquer adolescente, entrava muda e saía calada na esperança de que ninguém desse por mim e pelas minhas inenarráveis elucubrações.
Lembro-me de ter pensado que só um americano se poderia ter lembrado de fazer dinheiro à conta do senso comum, ainda por cima na forma de cábulas de consulta rápida - pelo menos para os mais crentes.
Hoje não precisamos de drugstore best-sellers para nos convencermos de que precisamos de um manual de auto-ajuda para sobreviver a tudo e a todos. Hoje há o email e toda a gente se acha no direito de nos bombardear com mensagens de aparente profundidade sobre a ideal forma de estar na vida, de encarar as contrariedades, de usar a água para emagrecer, mantras para atingir não sei que orgasmo cósmico, orações para apaziguar a fúria divina e ganhar uns milagrosos tostões.
Toda a gente copia e recopia quilómetros e quilómetros de sentenças, frases de gente célebre, soluções fantásticas, observações agudíssimas e dietas, debita segredos para curas inacreditáveis, avisos sobre uma próxima visita de extra-terrestres e imagens nunca vistas de espíritos, aparições e outras duvidosas questões.
E nesse absurdo esforço diário de comunicar a todos a melhor receita para o bem-estar e a sobrevivência da espécie, à mistura com apresentações enfadonhamente açucaradas com fotografias de cães e gatos abraçados, ou smileys sorridentes a quem só falta ouvir a tão americana expressão Oh My God, o que nunca ocorre a ninguém é fazer o que tão generosamente partilham com toda a gente.
Por que será então todo esse afã de tranquilizar a consciência própria e alheia com tão hercúleas passagens de testemunho? Será pura e simplesmente para arruinar e desesperar os produtores de best-sellers? Ou para contrariar a tinta manchada de sangue dos jornais?
O certo é que, pessoalmente, me sinto castigada por essa avalanche de mensagens que justificam até ao esgotamento a célebre expressão de boas intenções está o inferno cheio. A ponto de sentir um nó no estômago quando abro a minha caixa do correio e dou de caras com o assunto de um ou trinta desses emails.
Já pensei mesmo em comercializar um software capaz de detectar todas essas mensagens filosóficas, pejadas de conselhos e de auto-ajuda, que envie de imediato aos remetentes uma resposta curta e grossa: Salva-te a ti próprio e deixa o prolongamento electrónico dos meus neurónios em paz!
O pior é que corria o risco de receber essa mesma mensagem como um reencaminhamento de algum cidadão que não conheço, mas que caçou o meu endereço electrónico num outro reencaminhamento dessa perigosa espécie de utilizadores de emails que é incapaz de limpar os endereços dos outros e que resolve fazer suas todas as mensagens que lhe chegam à caixa de correio, despachando-as num ápice para as vítimas seguintes.
Se vivesse nos dias de hoje, duvido que o senhor Carnegie tivesse alguma vez escrito os primeiros manuais de auto-ajuda. Ou que os budas mantivessem o seu sorriso de bonomia depois de milhões e milhões de flores de lótus enviadas em seu nome.
Ufa!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

atirar a democracia contra si própria


Parecendo até uma medida extremista, esta de tentar a proibição do uso da burka em toda a Europa, por atentar contra os direitos de indivíduos de outros credos que não os cristãos, merece no entanto alguma ponderação.
É que a Europa, com os seus não muito antigos direitos e liberdades adquiridos, já está a braços com algumas das consequências do reconhecimento desses mesmos direitos. Na maioria dos países com uma larga imigração oriunda de países islâmicos, por exemplo, as liberdades e direitos dos cidadãos permitem que os estrangeiros se estabeleçam e se integrem, fazendo mesmo parte dos órgãos locais de governo e decisão.
O que começa então a acontecer? A influência dessas comunidades começa a exercer-se no sentido de restringir certos direitos e liberdades dos indivíduos e é claro que as mulheres e os seus ainda frágeis direitos são as primeiras atingidas.
Ou seja, as liberdades servem para alguns indivíduos limitarem essas mesmas liberdades, visto que o peso das comunidades estrangeiras a nível de governo local ameaça desequilibrar o fiel da balança.
A tentativa da proibição do uso da burka é apenas a ponta do icebergue. Há muito mais do que parece por detrás de um simples véu. E não são apenas os véus muçulmanos que tentam abanar o edifício dos direitos e liberdades. Há muitos outros grupos religiosos, cristãos e nem por isso, que estão muito activos e que também usam com exímia as leis dos países europeus em seu proveito.
Há muito tempo que os líderes religiosos exploram a fraqueza do exercício democrático, virando-o contra si próprio. E se as democracias resolverem fincar o pé e legislar contra determinados direitos fundamentais por causa dos abusos, incorrem no risco de abrir precedentes para outras restrições.
Ora, o que eu gostava era de ver um homem de leis chegar-se à frente e explicar que o universo do direito também está a evoluir e que é possível encontrar sistemas que sirvam a liberdade sem ferir o que é fundamental para o indivíduo.
E talvez, por arrasto, se tenha a sorte de conseguir que um punhado de jornalistas desista de fazer manchetes com lugares comuns e encha os títulos dos noticiários de frases bem formuladas, que além de bons títulos e boa propaganda, sirvam para levantar e debater as verdadeiras questões.



segunda-feira, 29 de março de 2010

desenhos, smileys e upgrades


Dantes escrevia cartas em papel fino para não pesar no envelope, com caneta de tinta permanente. Cada uma era um mundo quase real, descrito à medida da pessoa a quem dirigia a carta, moldado segundo a suspeita do que para mim seria aquela pessoa.
Agora, com a Internet e o politicamente correcto respeito pelas árvores, escrevo pequenos e-mails - não se pode abusar da paciência de quem ainda a tem para ler, nem que sejam só pequenos recados electrónicos - depois de me ter desfeito de milhares de cartas em envelopes com selos de todo o mundo que, guardadas num caixote na garagem, arrendaram os seus segredos a uma numerosa colónia de bichinhos.
Hoje guardo o papel para desenhar e de vez em quando sujeito-me à curiosidade de quem me apanha nesses desempenhos suspeitos de quem ainda se agarra a coisas que já não se usam:
- Esse desenho é para a escola?
- Não.
- Então para que estás a fazê-lo.
- Porque gosto.
- Eu não gosto muito.
- Isso é que é pena.
- Não gosto da professora.
- Acontece.
- Só me manda fazer composições e desenhos chatos.
- É natural. As professoras existem para nos chatear.
- É.
- Então não vais ser professora quando fores grande.
- Não. Vou ser artista de telenovela.
- Isso é para chateares a tua professora?
- É para ganhar dinheiro.
- E para que queres tu o dinheiro?
- Para comprar chupas e coca-colas.
- É melhor guardares algum para o dentista, depois desse açúcar todo.
(Pausa.)
- Não gosto nada desse desenho. É muito feio.
- Já calculava. Podes ir-te embora.
- Porquê?
- Porque também não gosto nada de ti.
- Isso não se diz às crianças!
- Tens razão, não se diz às crianças bem educadas. O que não é o teu caso.
- Vou fazer queixa à minha mãe.
- E eu à minha.
Dantes as crianças assistiam aos desenhos como quem assistia a um filme. Agora preferem a segurança de um smiley mil vezes repetido entre amigos. Sem novidades que as obriguem a estar mais de uma fracção de segundo a olhar para uma imagem.
Noutros tempos as crianças eram capazes de entender que há um espaço intransponível entre elas e os adultos. Algumas eram até capazes de compreender que ele equivalia ao respeito. Hoje ganharam smileys e já ninguém considera necessário fazer o upgrade dos seus chips sem espaço para mensagens personalizadas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

tentar escapar

Ao contrário dos votos trocados no princípio de outros anos, os deste ano podem começar como os desta conversa, tida há um bocado com um amigo:
- Que tal vai isso?
- Vai indo. Vou escapando aos despedimentos. E tu?
- Trabalhando por conta própria. A tentar fugir ao desemprego.
- Pois. Não está fácil.
- Há que ter calma. Não podemos desatar todos a matar gente e a assaltar bancos, até porque não somos concorrência para os de leste.
- Yah. Vai um dia de cada vez.
- E quando tiver de ser, sempre podemos ir acampar para Belém e São Bento, com a protecção da Guarda Nacional Republicana e outras forças de segurança nacionais. Nem tudo está perdido.
- Pois não. Bem, volto ao trabalho.
- Ok. Também tenho de responder a uns quantos anúncios de emprego.
- Há alguma coisa de jeito?
- Claro que não. Só as empresas de telecomunicações a pedir pessoas para massacrar os incautos pelo telefone.
- Isso dá alguma coisa?
- Despesa, é o que dá. Aquela coisa dos objectivos, sabes? Números aliciantes, mas impossíveis. Pretextos para não pagar o trabalho de ninguém. Recrutam dezenas de pessoas todas as semanas.
- E a malta cai nisso?
- Que remédio. O desespero é péssimo conselheiro. Depois ainda é pior: acaba-se a massa para os transportes e a malta desiste. O passo seguinte é o centro de emprego. Mas como desististe do trabalho, não tens direito a nada.
- Incrível. E ninguém se queixa?
- Não vale a pena. No centro de emprego garantem que nas grandes companhias ninguém toca. O que deve ser verdade, porque continuam a operar no mesmo esquema. E são sempre as mesmas.
- Quais são as alternativas?
- Podes sempre embarcar numa de suplementos alimentares miraculosos, máquinas de filtrar água, aspiradores turbo, máquinas de café expresso, enciclopédias e outros esquemas de pirâmide que vão dar ao mesmo. Em qualquer dos casos, no desespero de cumprires objectivos, lixas todos os teus contactos pessoais. Até podes ter dinheiro para o café, mas ficas sem ninguém para o tomar contigo.
- Isto está mesmo lixado.
- Olha que ainda não. Vês algum governante a tomar medidas para isto?
- Não.
- Então? A malta ainda aguenta. Enquanto os bancos nos derem crédito com o dinheiro dos impostos que nos esmifram, ainda se aguenta.
- E depois?
- Jardins de São Bento. Ajuda connosco.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

mais felicidade


Era muito bom que a decisão de muitos de nós fosse experimentar mais e mais felicidade durante este ano que entra. Não dietas, não novos hábitos, não mais dinheiro, nem sequer saúde, uma vez que felicidade é que é precisa.

sábado, 21 de novembro de 2009

milagres de todos os dias



Uma coisa que não faz parte do meu mundo é procurar milagres em credos e crenças, em parapsicologias e mistérios. Isso, muito simplesmente, porque eles acontecem todos os dias em frente dos meus olhos. Ou estou a dizer disparates? Não me parece...