quarta-feira, 1 de junho de 2011

dia mundial da criança

Em vez de um quarto cheio de brinquedos - muitos deles feitos por crianças em países em que nem se comemoram direitos nem outras coisas -, este rapazinho moçambicano fez o seu modelo de telemóvel com matope (lama) e usou um pauzinho como antena.
Um brinquedo feito assim, à medida do seu criador, é uma coisa especial. Embora a Europa e a América do Norte celebrem o dia mundial da criança, e haja muitos brinquedos nos quartos de dormir dos mais novos, os pais europeus têm muitíssimo menos tempo de convívio diário com os seus filhos do que os moçambicanos.
Na minha infância, brincávamos fora de casa com os amigos. Hoje, as crianças ficam presas até tarde dentro de casa e só na escola podem socializar e brincar com os outros. É muito difícil fazê-las entender que a escola é um espaço de trabalho, uma vez que não têm outro e, para elas, o recreio é ali.
Perdem-se e ganham-se coisas, quando acrescentamos direitos e brinquedos e perdemos outras qualidades.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

alguma cor

Foto MMFerreira

Há sempre forma de distinguir alguma cor, alguma vida, um sinal de que nem tudo está morto e frio, como a pedra ou o aço. Como quando se está tão desiludido que quase se acredita que é o fim de qualquer coisa. Nunca é, verdadeiramente. Há sempre uma continuação, apesar dos intervalos que nos impomos.

terça-feira, 24 de maio de 2011

chupetas e chocolates

Em inglês chamam-se pacifiers (pacificadores), que vêm mesmo a calhar quando lidamos com bebés. A minha descobriu rapidamente que podia enfiar cinco ou seis na mesma corrente, presa à t-shirt. Não tardou a ser necessária alguma negociação para trocar as chupetas completamente babadas por novas. Mas mal entravam na corrente eram lambidas e sugadas até ficarem tal e qual as outras. Tempos mais tarde, o passo seguinte foi planear uma forma de abandono das chupetas.
Foi assim que descobrimos um facto importante: enterrando uma chupeta num vaso de plantas, no dia sequinte nascia um chocolate no mesmo lugar. Foram necessárias várias tentativas para comprovar a eficácia da experiência. Mas não havia dúvidas. Uma chupeta enterrada dava lugar a um apetitoso chocolate.
Foi fácil chegar a uma solução de compromisso: sempre que estivesse preparada para desistir de uma das suas chupetas, a pequena criatura anunciava que estava pronta para a enterrar. E no dia seguinte "colhia" o chocolate, recompensa mais do que justa para o seu sacrifício.
Em menos de dois meses os vasos de plantas engoliram todas as chupetas-sementes e produziam os chocolates necessários para aplacar o desgosto.
No final, a corrente foi dispensada sem problemas e nunca mais se pensou em pacificadores. Bons tempos, esses de soluções simples e satisfatórias.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

faz diferença

foto MMFerreira
Podia fazer como os outros e deixar-me estar. Ficar mais contente em produzir uma vitrina vistosa ou um ramo de flores de aparência exuberante. Mesmo que seja capaz de fazer essas coisas e outras com muito bons resultados, não é o que me apetece. Não é aquilo que vem de dentro e me empurra. Até de olhos vendados saberia o que esse empurrão significa e onde me dirigir. Sei que o meu objectivo está na teia das coisas e na descrição da sua beleza. É aí que quero chegar e estar.

terça-feira, 19 de abril de 2011

rios e espelhos

Foto MMFerreira
Toda a vida devia ver-se assim, como um rio, sempre diferente, sempre em movimento, a espelhar as coisas de uma forma que não é verdadeiramente a delas, mas que marca definitivamente a nossa forma de as olhar. Se ao menos fossemos capazes de nos lembrar sempre disso...

sábado, 16 de abril de 2011

a mão do caos e da ordem

Foto MMFerreira
 Os artistas não nascem para ser bem educados, portar-se bem ou ser politicamente correctos. Não há nada de verdadeiro num artista que não gere à sua volta o caos para depois reconstruir o universo segundo a sua visão. A ordem só nasce depois de uma profunda transformação, de uma recusa radical em se trilhar caminhos já conhecidos. Para que serviriam os artistas se, conformadamente, se entretivessem apenas a juntar cores e formas bonitas, só para agradar e sem preocupação de inovar?
Nascer com algo dentro que lhes permite ver além do óbvio, que lhes revolta as entranhas e dói de uma forma que jamais lhes consente dizer apenas amen, e ser um veículo de uma qualquer força que os obriga a derrubar tudo, usando se necessário o próprio corpo, é um dom ou uma maldição impossível de domar e de manter paredes meias com as convenções.
Qual é a utilidade de um artista que aceita vergar-se à ordenada realidade alheia em vez de, honrando o seu destino, romper o chão como uma lâmina gigante, rasgando tudo à sua passagem? Pois se é exactamente aí que está a justificação da sua existência...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

11 de Abril de 1974

Baía de Inhambane (Foto: MMFerreira)
Chegámos a Inhambane a 11 de Abril de 1974, vindos de Manica, junto à fronteira com o actual Zimbabué. No dia seguinte começámos a ouvir, na BBC, notícias de que ia haver um golpe de estado em Portugal. Sentávamos-nos à noite nos degraus da entrada à espera do desenrolar dos acontecimentos. O alerta chegou catorze dias depois, alguns minutos passados da meia-noite, da casa do lado. Saímos todos para a rua. Os vizinhos fizeram o mesmo e juntaram-se algumas pessoas no passeio da avenida, em frente às casas. Também houve quem trancasse portas e janelas nessa noite.