Às vezes apetece escrever sobre nada. Não nada mesmo, mas sobre qualquer coisa que surja, sem filtros. Ou sobre a bonita homenagem que a Google faz hoje a Eiko Ishoka, que foi a criadora dos fantásticos figurinos do Drácula de Bram Stoker.
Voltando ao escrever sobre nada: é quase como escrever sobre tudo, com todas as possibilidades em aberto. Gosto de me sentir assim, live para explorar tudo o que venha a baile.
É um facto que somos incapazes de governar as nossas vidas com a coerência e a eficácia que desejaríamos. Senão vejamos: passamos a vida a lamentar-nos e a implorar por mudanças.Tanto o fizemos, que elas estão aí à porta: em casa, nas relações, nas instituições incapazes de funcionar cabalmente, na vida social e política, em que são cada vez mais evidentes as incoerências e a falta de respostas, em todo o planeta, que explode em demonstrações de insustenabilidade.
Toda a gente fala agora de um novo paradigma, mas ninguém o enuncia de facto. Porque o pressentem, porque já está a acontecer, mas são essas mesmas pessoas que lhe resistem, sem se dar conta que, para que este novo paradigma resulte, não podem continuar a repetir as mesmas velhas fórmulas.
Foram essas fórmulas, rotinas, vícios de pensamento que produziram o caos e a incoerência a que assistimos hoje. Por isso, repeti-los só cria mais do mesmo. O novo paradigma é uma mudança de hábitos e de pensamentos, dentro de nós, socialmente, globalmente.
E quem estiver à espera que polícos e líderes resolvam tudo, está no antigo paradigma e só vai sofrer com este. Está na altura de acreditar no poder individual que temos e de corrigirmos o que nos aflige. De acreditar que a mudança só nos beneficia e, afinal, fomos nós que passámos décadas a protestar e a pedi-la.
Ora, cá está ela e só temos de a abraçar e a compreender como a materialização dos muitos pedidos de ajuda que temos vindo a fazer. Vamos a isso?
Quando o silêncio surge como uma explosão e o observador se torna súbita e maravilhosamente consciente do momento, da magnitude de que faz parte. Do que oculta um ténue véu de pensamentos que nos dispersa. E da força interior que é a verdadeira natureza de qualquer vida.
"Na companhia da morte" - Tic-Tac (Teatro Amador de Ciências), Porto
Uma pesquisa no Google sobre artes mostrou resultados sobre actividades artísticas e artes marciais. As primeiras eram as pretendidas mas, surpreendentemente, a linearidade do motor de buscas acabou por fornecer um fio condutor sobre as duas coisas.
Os agentes artísticos reclamam com frequência sobre o pouco público que vai ver o seu trabalho e do pequeno número de espectáculos que cada obra acaba por realizar.
Sem minimizar o problema da sobrevivência, artistas e praticantes de artes marciais têm muito em comum.
Quem procura e pratica uma arte marcial fá-lo para seu próprio benefício, desenvolvimento pessoal e conhecimento. Faz tudo para se aperfeiçoar e sabe que os benefícios se seguirão. A satisfação que retiram de cada vez que mostram a sua evolução é garantida.
Do mesmo modo, o trabalho para um espectáculo é imenso e precedido de muitos anos de preparação. O resultado é igualmente aperfeiçoado ao longo do tempo e cada um deles manifesta as etapas do desenvolvimento do artista na sua disciplina de eleição.
O público, esse, numeroso ou não, também cresce com as construções nascidas da criatividade e entrega de cada apresentação.
O aperfeiçoamento pessoal está sempre presente para todos os intervenientes, em todas as formas de criação que observamos ou manifestamos. E o ganho é real, em uma ou muitas vezes que se repita o processo.
A vida e o trabalho enriquecem-se com a consciência do impacte que temos sobre uma ou muitas pessoas quando os exercemos e exprimimos com entrega e honestidade.
Dentro de nós está a infinita parte do que somos. A matéria-prima capaz de transformar o mundo real na mais surpreendente das maravilhas ou num inacreditável inferno. Há que determinar todos os dias, todos os momentos, a orientação a dar à experiência que queremos manifestar. Escolho púrpuras e laranjas, explosões de cor com o respectivo eco emocional. Escolho a vida intensa do meu interior às tristes manifestações interiores. Termino e começo todos os dias com o maior dos agradecimentos pelas minhas escolhas. Sabendo a que sabe a natureza.
Desenhos, aguarelas, telas são orações. Não se devem entender como actos aleatórios de criatividade. Os dias em que não criamos são dias em que desperdiçamos a oportunidade de olhar para nós e honrar o potencial que temos. E quando manifestamos essa fonte inesgotável e a dedicamos a alguém, estamos a partilhar o que de melhor há em nós e revemos nos outros.
Sonolências benignas atacam quando chega a altura de fazer uma lista de desejos, votos ou compromissos para o próximo ano. Naturalmente. Porque o que queremos é tudo. Tudo o que somos e desejamos, para nós e para os outros. Como é possível pôr isso numa lista? Sem esquecer coisas importantes que por aí vêm e que ainda nem suspeitamos o que são? Como adivinhar o que nos vai acontecer ao dobrar uma esquina, com quem nos vamos cruzar ou os desejos que estão tão escondidos cá dentro que nem sequer sonhamos que lá estão?
É mais fácil descansar a cabeça e esperar que tudo aconteça sem as distrações dos improváveis delírios da imaginação. O que nos acontece todos os dias é bem mais surpreendente do que se pode esperar e há que estar livre para ver tudo sem reservas.
Este ano o Festival das Luzes (Hanukkah) calha a 25 de Dezembro. Nos dias escuros de inverno, acende-se todos os dias uma vela para iluminar o mundo. Jesus também veio para trazer uma nova luz à nossa visão da vida.
Nicolau, o bem-humorado Pai Natal, desperta a nossa boa disposição e esperança nos sonhos. Como crianças, acreditamos mais nesta altura. Renovamos o espírito da luz e deixamos que nos lembre a fé no potencial da vida.
Partilhamos refeições e presentes com os amigos e a família. Damos e recebemos. Aceitamos, ou permitimo-nos receber, essa luz que procuramos todos os dias, as ideias e os sonhos que perseguimos durante a vida. Descobrimos, no último mês do ano, que é de novo possível alimentar esperanças e deixarmo-nos inundar por essa parte do nosso espírito que mantém a luz acesa dentro de nós.
Lembramo-nos, uma vez por ano, do verdadeiro sentido da vida, do amor que se expande sempre e que tudo torna possível. É a inspiração que nos transporta para um novo ciclo a transbordar de possibilidades e escolhas diferentes.
Uma luz que não se apaga, mas que se esquece quando nos deixamos embalar pela parca e árida visão materialista do mundo. Por que não acabar e começar este e o próximo ano mantendo a nossa chama acesa? Boas Festas, espíritos iluminados.