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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

alegria sem calendário

 


O Natal começa quando o comércio quer. À espera do Eldorado das vendas, entre Outubro e Dezembro 'mata-se' a festa com a inflação da expectativa e o cansaço da repetição das músicas, dos enfeites e dos marcadores de desconto. Esgotante e aborrecido, embora possa parecer coisa de campeões de resultados. Se fosse, não estavam sempre a adicionar mais duas semanas à maré natalícia.
No entanto, nem tudo são más notícias. Por exemplo, cá estou eu a entusiasmar amigos e família com a minha permanente paixão pelo Natal. Também há quem, nem que seja só por superstição, nos deseje festas felizes. Não vá o Céu reparar e excluí-los das bênçãos natalícias.
Depois há gente que não admite a sua infantilidade e festeje secretamente a esperança de um dia destes ainda ver o Pai Natal.
Como acredito que há muito mais Mães Natal e estou sempre a vê-las, não desanimo. Dá gosto observar como se aplicam, se preocupam, se emocionam com os sorrisos que arrancam com as suas comidinhas e prendas. Mesmo depois de se esfalfarem todas a poupar o décimo quarto mês, a correr para as compras depois do trabalho e antes do jantar, a limpar a casa para a ocasião, montar a árvore e espalhar enfeites, preparar o jantar, o almoço de festa e a arrumar tudo para ir trabalhar no dia seguinte.
As Mães Natal nunca me desapontam e, para dizer a verdade, estão todo o ano presentes, atentas e incansáveis. Nem percebo por que razão as consideram o sexo fraco. Portanto, Festas Felizes para todas.
Além disso, o Natal também existe para nos lembrarmos que a fraternidade, a compaixão, o amor e alegria são um quarteto sólido e resistente. Faz-se lembrar naturalmente quando pensamos no espírito natalício e nos sentimos compelidos a pô-lo em prática.
Portanto, Festas Felizes, com muita alegria e gente querida à volta. Nesta altura, cada um de nós tem pelo menos um pequeno papel de resgate de coisas boas e valiosas à mão. Estão connosco todos os dias, mas ninguém aguenta uma felicidade permanente e fado foi criado para nos proporcionar o necessário contraste.

P.S.: Mãe Natal, como só existe o endereço do velhinho pitosga com uma barriga e umas bochechas de quem tem problemas com o colesterol, aproveito para te deixar aqui os meus pedidos. ~
Não te preocupes com a minha idade, porque toda a gente sabe que sou uma delinquente infantil presa num corpo adulto e não sou esquisita com os meus pedidos. Basta que me faças chegar todas as prendas que as outras pessoas rejeitam.
Tenho sempre a quem dar, não me importo de reciclar os desperdícios conscenciosamente e aproveito tudo o que sobrar. Calculo que tenho Natal para o resto do ano que vem.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

ouvintes


Há sons que chegam como as trombetas do Apocalipse. Fazem-se ouvir uma vida inteira, mas o hábito de os ter sempre presentes torna-nos incapazes de os ouvir. Quando começam a destacar-se dos outros sons entendem-se como ruído, porque a percepção precede normalmente a consciência da sua existência.
O processo de ouvir tem, como tudo, uma receita gradual e com tempos certos, como uma sinfonia estruturada, mesmo exibindo de início falta de um fio condutor. 
Os sons começam por surgir como escolhos, na corrente vertiginosa que compõe as coisas desta vida. Requerem alguma atenção, mas nada que faça sentido e, portanto, são peças descartáveis num puzzle que não apetece pôr em ordem.
Quando atingem um número assinalável de ocorrências, é impossível ignorá-los. Mas pode sempre ignorar-se o sentido que eventualmente possam fazer. O resultado é uma inquietação crescente, como uma dor que aumenta sem ser devidamente cuidada. Os ouvintes desatentos acabam por se ressentir do que para eles é um ruído intrusivo e de código desconhecido.
Os ouvidos físicos estão viciados noutros sons, que fazem grande sentido na ordem habitual das coisas. Quando se começam a ouvir os sons que implicam outras ordens, é como se de uma infecção se tratasse e devêssemos atacá-la com muitos antibióticos.
O problema é que não existem pílulas milagrosas para silenciar os ouvidos que despertam para sons de outra ordem. Há que aprender a entender e a usar em nosso proveito essa nova forma de ouvir. Aceitar que somos ouvintes mais complexos e mais conscientes.
Só então ganham sentido essas trombetas reveladoras. Afinal, o caos deste mundo tomou forma através do verbo divino e qualquer ouvinte deveria sentir-se lisonjeado com o que é, de facto, uma epifania.

[ouvinte - adjetcivo e substantivo de dois géneros: 1. que ou aquele que ouve; ouvidor; 2. substantivo de dois géneros; aluno que assiste à aula sem estar matriculado na escola ou na disciplina.]    

terça-feira, 23 de outubro de 2018

anjos como nós

'secret keepers' - 2012 (watercolor)
Há anjos como nós, que de vez em quando se cruzam no nosso caminho e nos enchem de sinais e sensações que nos são familiares e estranhos ao mesmo tempo. Ou é o tempo dos anjos que se mistura com o nosso e parece então que fica fora do lugar ou da sequência que lhe damos habitualmente.
Há anjos que só nos aparecem para correcções de rota, por instantes, para voltarem a pôr-nos no caminho certo. Outros que nos acompanham a vida inteira e nem sequer se fazem especialmente notados. E ainda uns que nos arrebatam como se nada mais no mundo importasse.
Agrada-me muito esta ideia de viver num mundo de anjos que surgem como lufadas de ar fresco, ondas poderosas ou rios de emoções e sensações em que é obrigatório mergulhar e disfrutar para entender o verdadeiro sentido da vida.
Como anjos, cada um de nós faz parte dessa dança encantada em que o mundo se transforma quando nos deixamos levar por coisas boas e entusiasmos vários. Por coisas que lamentamos muito quando deixamos fugir, sem nos apercebermos que elas voltam, talvez com outras roupagens, mas sempre com a clara intenção de nos obrigarem a reflectir e a viver qualquer coisa importante.
É muito agradável manter uma saudável consciência de sermos anjos que se dão com outros anjos. Mesmo sem asas ou poses celestiais. Apenas com uma honesta vontade de participar de uma visão angelical de todas as coisas.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

isso faz-se marinheiro?



Há mais marés que marinheiros e há tantos marinheiros (quase oito mil milhões, sempre a crescer) que nos é difícil fazer uma ideia do verdadeiro sentido das marés. Mal mergulhamos numa chega logo outra e outra. 
Não admira que nos sintamos arrastados de um lado para o outro sem controlo e sem pé. E com uma irresistível vontade de bater asas e voar. Porque ser marinheiro não basta. Também é bom alapar numa rocha e sentir a segurança de um porto. Ou enterrar a cabeça na areia para não ver nem ouvir nada.
A Natureza não dá descanso, à imagem e semelhança da tempestade de pensamentos em constante desfile em cada mente humana. À cautela, deixam-se aqui de fora as restantes mentes, não vá o diabo tecê-las e conferir o mesmo poder aos animaizinhos, insectos, plantas e por aí fora. Aí é que a porca torcia o rabo e o caos ficava oficialmente estabelecido.
Somos umas coisas inconstantes, sempre a sonhar com ordem e tranquilidade, mas a deixar que a mente assuma livremente todos os nossos desejos, sem qualquer direcção definida. Somos o caos cá dentro, mas não o admitimos dentro de nós e espantamo-nos com o que se manifesta fora.
Uma cambada de inconscientes e marinheiros de água doce é o que somos. A estabelecer que não desejamos a ordem interior, mas a apontar o dedo à de fora. Isso faz-se, minha gente?

sábado, 26 de maio de 2018

o sentido dos santos de casa


Escrever e desenhar ajudam a pensar. Até a memorizar. A organizar o que aleatoriamente acode à mente e a encontrar um foco para fixar raciocínios. Os padrões surgem, em palavras, cores ou formas, ordenam-se, ou não, mas nunca passam sem efeito.
É uma maneira de dar sentido e alargar o pensamento. E de o expressar livremente, criando e manifestando, escolhendo caminhos que fazem sentido. 
São actividades muito pouco frívolas, que nada têm que ver com o pendor ligeiro atribuído à expressão ser artista, utilizada para classificar quase sempre de forma descartável quem se considera fora da realidade e diferente dos demais.
Essa maneira de rotular o artista não pode, na realidade, estar mais longe da verdade e do valor intrínseco do poder da criatividade, do método que ela exige e da perseverança necessária a quem aposta em novas formas de encarar a experiência.
Denota, pelo contrário, a falta de reflexão de quem assim se pronuncia sobre forças vitais que movem qualquer indivíduo. Assim disposto a expandir o seu universo mental e de vivências, pratica em prol de todos descobertas que enriquecem e libertam.
Numa sociedade sempre tão ávida de consumo de novidades, estranha-se essa menorização do artista, sobretudo quando se conhece a sua reconhecida avidez por heróis e deuses. 
O artista é um santo de casa que faz milagres, mesmo quando a cegueira dos outros o desfoca em algumas realidades mais comezinhas. Afortunadamente, o poder de emparedar os outros é uma prática com grandes limitações, já que o seu propósito é, por definição, criá-las.
Ao artista cabe a tarefa de fazer orelhas moucas às vozes de burro que jamais chegam ao céu.