terça-feira, 22 de maio de 2012

os xamãs de hoje

Artwork by MMFerreira
 Na secura do materialismo dos dias de hoje, os artistas são os únicos xamãs aceites e autorizados pela sociedade. Repositórios de conhecimentos esquecidos e ligações misteriosas com mundos paralelos de imensa riqueza, materializam-nos em manifestações artísticas que nos devolvem visões surpreendentemente belas, equilibradas e arrebatantes da realidade.
Em oposição a quem considera a arte fútil e inútil, quando vejo as multidões que acorrem a concertos, espectáculos e outras realizações criadas por gente capaz de ver e viver além da parca economia de sobrevivência, regozijo-me sempre com a eterna capacidade para sonhar e reinventar a realidade de que são capazes os artistas.
Toda a gente sabe que a arte não dá de comer porque o ouve repetidamente ao longo de toda a vida. No entanto, poucos são os que resistem ao arrebatamento de uma canção, de uma representação, de uma pintura, de palavras ditas e escritas.
É magia, sim, essa forma de comunicar com o que dentro de nós explode quando se encanta com uma peça artística. É magia essa coisa de pegar em sentimentos, objectos inertes, irracionalidades e transformá-los em coisas que fazem sentido, sendo embora intraduzíveis mesmo quando é nas palavras que desenrolam a beleza pela qual todos suspiram.
É magia essa capacidade de apelar com tanta autoridade ao que dentro de cada ser humano grita por algo mais.
O artista é o xamã que, com olho mágico, escrutina a alma e arranca dela ansiedades incontroláveis, desejos profundos, novas visões. Momentaneamente despojado das amarras materiais, mergulha no inconsciente colectivo como um caçador de pérolas para trazer à superfície minúsculas porções de riqueza.
Pode passar uma vida inteira sem o reconhecimento material do seu trabalho ou dos seus pares, mas dedica teimosamente toda a sua energia ao que é a sua função nesta vida. O seu trabalho aparentemente irracional e louco completa lacunas e é em geral tolerado. De vez em quando, censurado, porque também há quem nele intua a capacidade de uma arma. Não das que tiram vidas, mas das que a renovam e revolucionam.
Sem o peso do controlo humano que onera crenças e religiões, o xamã-artista circula quase livremente entre nós, contribuindo decisivamente para a contínua transformação de ideias e conceitos. É um visionário cujo rótulo de inutilidade é, de facto, o seu melhor escudo contra o controlo do estabelecido.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

hoje, o foco

Artwork by MMFerreira
Hoje fiz umas curvas e acabei por reencontrar um caminho. Com facilidade, diga-se. Basta olhar em volta, identificar, enumerar e verificar que padrões nos chamam mais a atenção. E hoje foram estes, em laranjas, amarelados, cremes e verdes. É fácil deixar fugir uma ideia central quando tanta coisa à nossa volta parece empenhada em distrair-nos do foco principal. Afinal, não é nada do que está à volta. É apenas falta de foco. Somos nós que temos de agarrar uma ideia e mantê-la sob apertado controlo. E todo o caos se organiza como por milagre à nossa volta.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

escolhas e fantasias

Muito se queixam as pessoas, mas o certo é que, o governo que têm é sua escolha. Que esperavam, ao tomar a decisão de votar em pessoas cujo universo mental parece o de um mata-borrão? O único acerto foi anteciparem o derrame de tudo o que é vital e a respectiva absorção por um governo que parece um aspirador de anti-matéria. Há que deixar de responsabilizar gente obviamente incapaz de assumir determinadas responsabilidades e começar de imediato a imaginar governantes poderosos, criativos e capazes de mudar realmente a nossa realidade.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

desobediência

Art image by Marita M. Ferreira
Há coisas que nunca conseguirão ter a minha simpatia, como o terrorismo, o abuso, o lado negro da vida, a amargura, o desespero, a histeria. Também não posso ter simpatia por ideias como a do ministério do interior espanhol, que equaciona a resistência passiva como crime. Fui educada como muito boa gente, a respeitar a autoridade e a pensar sempre que atrás da ordem está sempre algum benefício. Não vejo, no entanto, nenhum mérito em obedecer, quando me estão a atirar para um poço.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

quem tem medo do lobo mau?

Art image by Marita M. Ferreira
O medo sugerido é uma grande arma. Porque se nos pintam um cenário terrível, imaginamos o pior. Nem sequer o que os nossos inimigos conseguem imaginar como pior para nós, mas aquilo que nós próprios sabemos de que temos medo.
É o que acontece quando o Governo e as muitas troikas exteriores nos dizem que a crise está má e ainda vai piorar. Infelizmente, o Governo é democraticamente eleito por nós, para nos governar, mas apenas governa segundo os interesses dos outros. Os governantes são, por isso, pagos por nós, mas assalariados de corporações internacionais. E com elas nos ameaçam, com o maior dos descaramentos.
Ora, o que aconteceria se não aceitássemos o cenário de terror do Governo? Que aconteceria se deixássemos de pagar a dívida que nos impuseram? O apocalipse?
Não. Nem sequer isso. Claro que ficávamos mal, sem o crédito alheio, mas mal já nós estamos e ainda vamos ficar pior. Mas podemos escolher entre ficar mal, mas sermos donos do nosso destino, ou ficar mal e nunca sermos donos de nada, condenados a ser os fantoches de todas ascorporações internacionais que põem e dispõem da nossa vida e do nosso esforço.
O mundo acaba? Não. O País acaba? Não. As dificuldades acabam? Não. Mas acaba a pressão e aquilo com que tem de se lidar é muito mais humano, muito mais pragmático, muito mais certo.
Alguém alguma vez ouviu dizer que um país desapareceu do mapa por não ser capaz de pagar a dívida externa? Não, pois não? As pessoas desse país morreram todas? Desapareceram no espaço escuro? Não. Então o que lhes acontece? Nada, absolutamente nada. Continuam na bancarrota, mas os chupistas escolhem outros países para extorquir e deixam-nos em paz uns tempos.
Por isso, quem tem medo do lobo mau? O Governo? Então que tremam eles dos pés à cabeça. Os outros podem encolher os ombros e abandonar a brincadeira, porque deixou de ter graça.

segunda-feira, 19 de março de 2012

filhas e pais

Inhaminga, 1966
Hoje é dia do pai e também o aniversário de uma das minhas irmãs, Ana Margarida, a segunda a contar da esquerda, na fotografia. Foi a única que nasceu em casa, em Vilanculos (Moçambique), com a ajuda do meu pai como parteiro. Há cinquenta e um anos, quando toda a gente se juntava para ir para a praia, a minha mãe ficou para trás e, com ela, o médico e o meu pai, para o ajudar. Na altura, o hospital tinha menos condições do que a casa para o parto. O dia do pai tem, por isso, um significado especial cá em casa e é partilhado entre os dois, filha e pai. Ainda hoje, de volta do bolo de aniversário, se recordou a história do parto e outras aventuras de pais e filhos. A autora da fotografia acima é a minha mãe, que se revezava no serviço da máquina quando havia fotografias de família para fazer.