terça-feira, 17 de julho de 2012

boas notícias

Foto MMFerreira
As boas notícias são que há um cachorro vega na roulotte de cachorros quentes da Boca do Inferno, em Cascais. A cerveja não é suficientemente fria, mas a vista compensa. A música é massacrante, mas às vezes pára. Vêm-se cargueiros e veleiros ao largo, gente a passar para lá do sinal de Perigo de derrocada, colocado bem à frente da falésia, para ir fotografar a fazer equilíbrio em rochas instáveis e de preferência de chinelitos a escorregar no pé. Se pusessem lá um sinal a dizer Cuidado com a crise, era igual. Ninguém ligava. Não me surpreende pois que, mesmo com telejornais apocalípticos vinte e quatro horas por dia, ninguém se rale verdadeiramente com a economia em jeitos de equilibrista barata de circo de quinta categoria. A vista é boa, o País está de férias e não precisamos de melhores notícias. Os incêndios criminosos já disputam manchetes e aberturas de noticiários, mas há tanta festa alive e super qualquer coisa, com tanta gente famosa, bonita e bem vestida, que nada pode estar verdadeiramente mal. Em três quartos de hora a mastigar salsichas com molho picante, batata-palha e cebola frita, a acompanhar a cerveja quase fresca em copos de plástico que não se aguentam com o vento, sete pessoas passaram o sinal de derrocada para fotografar as rochas do Inferno e nenhuma caiu por ali abaixo. O Universo tem, definitivamente, uma tendência para o equilíbrio.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

bandeiras

foto MMFerreira
Gosto de bandeiras e desta muito em especial. Sempre achei feliz a combinação verde e vermelha. Tem uma boa vibração, energia, é jovem e sempre me cativou. Também gosto da esfera dourada, a lembrar valores e tesouros que vivem dentro de nós e, apesar de nunca ter sido católica em menina, entendo a simbologia das quinas e simpatizo com o que representam. Nunca me fez confusão vestir de vermelho e verde e nunca entendi a relutância de algumas pessoas em misturar as duas cores. "Pareces a bandeira", atirado como um estalo, foi coisa que nunca entendi. Que mal poderá advir de combinar na roupa as cores de um símbolo nacional? Nunca achei que fosse coisa de mau gosto, visto que esse é relativo e o pior mau gosto são determinadas imposições.
Acho mal que só nos lembremos da bandeira quando jogam os ronaldos e os figos desta vida, acho mal que se tenha de vergonha de abraçar o que se é. Acho que andamos demasiado preocupados com a vergonha e não levantamos os olhos vezes suficientes para vermos as cores da bandeira que nos inspira e seguir o seu exemplo, flutuando livremente ao vento, longe de gente de verdadeiro mau gosto e ministros cinzentos que preferem apostar em todos os subornos e chantagens exteriores, em vez de apostar na gente e no País que já têm.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

re-age!

Reagir: exercer reacção, lutar, resistir. Ou será repetir a re-acção? É que a vida, tal como nos é vendida, é só mesmo um elaborado conjunto de reacções. Reagimos sobretudo às complicações da vida. Uma vida que não é exactamente nossa, mas um modelo para dentro do qual deslizamos sem nos darmos contra. Repetir diariamente, mensalmente, anualmente as mesmas tarefas, burocracias, obrigações e até distracções. Que tempo nos fica para pensar e agir por moto próprio? Re-agimos, reptimos acções, queimamos o nosso tempo num calendário que não é nosso. A quem ou a quê aproveita tanta reacção? E quando é que agimos?

quinta-feira, 7 de junho de 2012

mandala por Portugal

Por que é que o mal nunca ganha? Não é uma pergunta-quizz e a resposta também não é para explicar o happy end de um filme norte-americano. O mal nunca ganha porque todos os actos atraem acções do mesmo tipo. O futuro do bem está, por isso, sempre garantido. Do lado do bem. Isto é uma mandala serena por Portugal.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

rumores de um grão de areia

Não é o Apocalipse/Revelação, não são as fileiras redentoras do Quinto Império, nem a justiça de um qualquer deus de saco cheio de promessas por cumprir. É apenas a relação de causa e efeito do que tem vindo a acontecer nos últimos anos. Nem sequer é o triunfo das teorias da conspiração, que já há muito escapou do controlo e das mãos dos conspiradores. Essa é a beleza da imperfeição: nenhum sistema é seguro, porque uma única pessoa, uma única cabeça, uma única vontade pode acender um rastilho de incalculáveis proporções. E salvé, ó deusa eterna da imponderabilidade. O mundo é e sempre foi do grão de areia.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

justiça

A única coisa verdadeiramente em crise a nível global é a Justiça. Por alguma insondável razão, as pessoas que neste momento se concentram a dar forma a esta nova Idade Média, subjugando biliões de pessoas a uma nova escravatura, acreditam que vão sair para sempre impunes dos seus crimes.
Porque é crime sujeitar um ser humano a uma vida de sofrimento e exploração, sem lhes dar sequer a oportunidade de acreditar que há outras formas de existir. É crime retirar toda a forma de subsistir e de esperança, de se defender e de ter uma participação activa nas decisões para a sua vida.
A conjuntura não explica mais do que a capacidade de uns milhares subjugarem todos os outros. E de terem organizado um sistema de leis em que as suas acções não são jamais sancionadas, enquanto tudo o que seja da livre iniciativa dos outros esteja limitado por regras incapacitantes.
A Justiça é a maior executada neste sistema imaginado para produzir o terror e inibir o livre arbítrio. Caiu nas mãos de uma gigantesca operação de marketing e é fuzilada todos os dias por milhões de regras criadas para a manietar e a lançar contra aqueles que deveria defender.
Precisamos de uma OPA sobre a Justiça, orientada para os desclassificados do sistema, de forma a que se crie uma corporação de direitos que sirva de facto o indivíduo e não essa gigantesca máquina neo-feudal que já ninguém governa nem sabe como parar.

terça-feira, 22 de maio de 2012

os xamãs de hoje

Artwork by MMFerreira
 Na secura do materialismo dos dias de hoje, os artistas são os únicos xamãs aceites e autorizados pela sociedade. Repositórios de conhecimentos esquecidos e ligações misteriosas com mundos paralelos de imensa riqueza, materializam-nos em manifestações artísticas que nos devolvem visões surpreendentemente belas, equilibradas e arrebatantes da realidade.
Em oposição a quem considera a arte fútil e inútil, quando vejo as multidões que acorrem a concertos, espectáculos e outras realizações criadas por gente capaz de ver e viver além da parca economia de sobrevivência, regozijo-me sempre com a eterna capacidade para sonhar e reinventar a realidade de que são capazes os artistas.
Toda a gente sabe que a arte não dá de comer porque o ouve repetidamente ao longo de toda a vida. No entanto, poucos são os que resistem ao arrebatamento de uma canção, de uma representação, de uma pintura, de palavras ditas e escritas.
É magia, sim, essa forma de comunicar com o que dentro de nós explode quando se encanta com uma peça artística. É magia essa coisa de pegar em sentimentos, objectos inertes, irracionalidades e transformá-los em coisas que fazem sentido, sendo embora intraduzíveis mesmo quando é nas palavras que desenrolam a beleza pela qual todos suspiram.
É magia essa capacidade de apelar com tanta autoridade ao que dentro de cada ser humano grita por algo mais.
O artista é o xamã que, com olho mágico, escrutina a alma e arranca dela ansiedades incontroláveis, desejos profundos, novas visões. Momentaneamente despojado das amarras materiais, mergulha no inconsciente colectivo como um caçador de pérolas para trazer à superfície minúsculas porções de riqueza.
Pode passar uma vida inteira sem o reconhecimento material do seu trabalho ou dos seus pares, mas dedica teimosamente toda a sua energia ao que é a sua função nesta vida. O seu trabalho aparentemente irracional e louco completa lacunas e é em geral tolerado. De vez em quando, censurado, porque também há quem nele intua a capacidade de uma arma. Não das que tiram vidas, mas das que a renovam e revolucionam.
Sem o peso do controlo humano que onera crenças e religiões, o xamã-artista circula quase livremente entre nós, contribuindo decisivamente para a contínua transformação de ideias e conceitos. É um visionário cujo rótulo de inutilidade é, de facto, o seu melhor escudo contra o controlo do estabelecido.