sexta-feira, 26 de setembro de 2025
uma centena de anos e de histórias
Se ainda estivesse entre nós, o meu pai faria hoje cem anos. Um século parece muita coisa mas apesar do tanto que acontece nesse espaço de tempo, não é nada. Passa num instante e somos sempre surpreendidos pela efemeridade de todas as coisas.
Hoje, apesar de tudo o que nos deixou, a mim e às minhas irmãs, continua a somar histórias nas nossas lembranças. Quando falamos nele e recontamos alguma coisa passada com ele, ou reutilizamos a sua experiência no dia-a-dia para encararmos e resolvermos os pequenos e grandes desafios da vida. Nessas alturas ligamos as nossas histórias às dele e acrescentamos-lhes alguns pontos, como se faz quando contamos um conto. As novas versões são sempre enriquecidas, como se as experiências dele e as nossas fossem sempre renovadas, recicladas e transformadas. Sem limites senão os da expansão. Nada se perde.
Escolhi esta imagem porque me lembro sempre que uma das suas actividades favoritas era fotografar e as flores eram recorrentemente apanhadas pela sua lente e depois reproduzidas em slides projectados nas tertúlias familiares depois do jantar. A par dos filmes Super 8 da Kodak dos anos sessenta do século XX.
Eram flores a sua oferta favorita para a minha mãe nos seus dias especiais. Nos outros ela também cultivava o gsto por as plantar e cuidar enquanto cresciam.
O azul do fundo da imagem é uma homengem ao F. C. do Porto, que seguia discretamente pela televisão, por que na família havia, pelo menos, mais dois clubes venerados. Já as folhas são numerosas e diversificadas como a família e as suas histórias.
E na vida nada mais se passa de maior valor que os contos e pontos e o intrincado mapa de todos que só se complica ou fortalece ao longo dos anos. Portanto, parabéns, parabéns, parabéns, pelos cem anos que nunca foram de solidão e deixaram uma saudade sem medida.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2023
a obrigação de agradar
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| by MMF |
A facilidade de acesso à informação e de comunicação disponível é uma coisa maravilhosa. E parece que vai haver mais, muito mais. A capacidade de gerirmos isso criteriosamente já não é tão maravilhosa e, sinceramente, parece que pode piorar bastante. Ou não.
Um dos aspectos mais fantásticos da tecnologia que nos abre mundos é o poder que nos dá. É a descoberta do que podemos fazer com um simples telefone na mão, redes sociais, botões que nos permitem reagir em tempo real a tudo o que nos chega aos ouvidos, aos olhos e aos rápidos dedinhos que já nascem ensinados a tratar tu cá tu lá com os nossos novos apêndices.
Toda a gente "empoderada", como se diz, toda a gente a saber que importa. Isso é que é viver de acordo com todos os direitos, esses que chegam em nano pedaços de tempo à nossa consciência, prontos a usar, como uma fast food.
Chegam também com uma nova obrigação, a de agradar ao máximo de pessoas, ao máximo de seguidores, ao máximo de indivíduos desejosos de fazer cliques em corações, polegares virados para cima, mãos unidas em gratidão. Um mundo de alegrias e fofuras sem fim.
Até os políticos e os jornalistas aderiram a este mundo sem limites de coisas boas e em tolerância zero para negativismos. Os primeiros porque já aprenderam que os gostos e outros bonequinhos favorecem a sua popularidade. Os segundos porque esquecem os seus deveres deontológicos, a obrigação de verificação dos factos e da verdade.
Neste mundo de emojis felizes e carinhosos, surgiu um pacote de novos pecados: não agradar de imediato, não aplaudir causas como a do queijo que não deve ganhar bolor, não publicar constantemente selfies de intimidades desinteressantes. Entre outros.
Ressalva: partilhar emoções fortes como o cocozinho do cachorrinho acabado de trazer do abrigo, a primeira zanga com a cara metade desta semana, o penso rápido no dedo do pé, ou a t-shirt cor-de-rosa que ficou tingida com a camisola vermelha usada no Natal. Ou outras que podem parecer mais insignificantes mas que, no conforto do sofá, ganham dimensões universais.
Ou seja, todos têm obrigação de nos agradar, compreender e mimar em full time. O problema é como entrelaçamos essa fofura toda com a mesma necessidade dos outros sete biliões de seres humanos do planeta.
Agora que estamos todos tão ternamente ligados, a questão essencial é como adicionamos funcionalidade prática a este mundo arco-íris e livre de dualidades dúbias.
Claro que há sempre os trolls e os maus da fita que jamais terão direito à sua opinião e aos polegares e corações. Gente que se percebe de imediato que não têm desculpa, nem razões aue, aliás, a razão desconhece nesta correria de reacções.
A esses, claro, não faz mal nenhum privar de direitos, estralhaçar, apagar da história dos bons o mais depressa que possam os nossos dedinhos deslizar pelos ecrãs dos telemóveis.
É a nova justiça popular, essa de "apagar" sem misericórdia e com um toque apenas os miseráveis que não fazem cá falta nenhuma. Não no nosso mundinho perfeito e preguiçoso para os lados do contraditório.
A propósito, já está feita a vossa obrigação do dia? Quantos cliques derretidos em cada rede social? Atenção: não mais do que trinta por dia em cada uma delas, não vá a "rede" castigar-vos com um mês de abstenção total.
Peço já desculpa às ditas redes, que não têm obrigações de gente de verdade, de ser boas, más ou razoáveis. Afinal, só respondem mecânicamente aos demónios e aos anjoa que as usam. Esta coisa do perdão público também é uma questão a apreciar noutra roda de letras.
Deixa-me ir embora agora, ao som das flores da senhora que gosta de verniz vermelho, comprar os ramos para si mesma, escrever o nome na areia e falar sozinha horas a fio.
terça-feira, 31 de outubro de 2023
fadas em casa?
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| Ilustração: MMF |
Há tempos, uma amiga instalou umas câmaras em casa para vigiar o comportamento dos cães quando estão sozinhos. O equipamento vem com uma aplicação que permite monitorizar em tempo real o que se está a passar nas áreas abrangidas pelos olhinhos virtuais.
Este mês convidou-me para um chá, um chapinhanço na piscina e uma lazeirice nas cadeiras do jardim com vista para o mar e para a Serra. Entre conversas, surge a ideia de ficar até mais tarde, para ver o que as câmaras filmam quando a noite se instala. Assim foi.
Depois do jantar e das conversas que nunca se esgotam, apagámos as luzes e ela fixou o telemóvel num sítio onde pudéssemos observar as duas as imagens captadas na sala. Foi a loucura total.
Os infravermelhos das câmaras começaram a mostrar umas bolas de luz branca que atravessavam a sala a grande velocidade. Saíam das paredes, do chão, do tecto, com uns rastos parecidos com as caudas de cometas. E desapareciam do mesmo modo, desaparecendo pelas paredes.
Eram imensas e aquilo parecia um festival de luzes, aparições efémeras que nos transmitiam uma alegria infantil. Só se viam na aplicação do telemóvel, possivelmente graças aos infravermelhos, mas sentiam-se. Não sei bem como, mas também não interessa, porque a nossa excitação funcionava ao mesmo nível daquelas luzinhas que apareciam e desapareciam por todos os lados.
Estivemos naquela fruição bastante tempo, de braços no ar e às gargalhadas como as crianças que comem doces a mais.
A certa altura uma bolinha de luz mais avantajada atravessa a sala, de uma parede à outra. Ouve-se quase em simultâneo um estrondoso estalo e a electricidade da casa foi-se. As câmaras deixaram de mostrar as luzes esvoaçantes.
A habitual manobra de desligar e voltar a ligar o quadro eléctrico não funcionou. O candeeiro da rua continuava aceso e havia energia nas casas vizinhas.
Ficámos à luz das velas e a olhar para as imagens do que se tinha passado, mantendo a alegria com que tínhamos assistido. Uma das filmagens, vista em câmara lenta, mostrava a imagem de uma das bolinhas visitantes com contornos de algo semelhante a asas a bater tão rápido que não se notavam de outra maneira.
A conversa durou bem para lá do inusitado espectáculo a que pudemos assistir, com relatos do que alguns amigos dizem do que se passa todas as noites lá em casa. Fadas, portais, elementais e mais alguns palpites, cada qual no seu género e registo.
Não faço a mínima ideia do que se passou, mas foi inebriante e sem ressaca quando a manhã chegou e a luz voltou, como tinha ido, sem aviso prévio.
O que posso dizer é que, se são fadas, desconfio que a minha amiga é uma espécie de mãe designada e protectora delas todas. Espero ter oportunidade de revisitar a experiência e ver se aprendo alguma coisa com as luzinhas viajantes entre mundos.
segunda-feira, 7 de agosto de 2023
um homem bonito
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| Jorge Indìveri (foto de família) |
sexta-feira, 14 de julho de 2023
a Bastilha e as caixas estanques de acrílico
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| Hope Flags Take I-01 by MMF |
Dia da Bastilha e lá vemos um mar de tropa a desfilar. Nada contra. Só se estranha depois de ouvir tanta letra sobre a paz mundial e sustentabilidade, mais acordos sobre acordos sobre os mais maravilhosos desejos da Humanidade e, no final, todos os dias das nações a serem celebrados com paradas militares.
Ou o orgulho nacional afirmado na ponta das armas. Deve fazer sentido, embora me escape.
Sabendo todos nós que na vida só a morte é certa, não vejo, francamente, a utilidade de se pensar permanentemente em matar estes ou aqueles. Já passou tempo suficiente para pensarmos e executarmos soluções de sobrevivência mais criativas.
Como se vivêssemos todos num mundo ordenado em caixas estanques de acrílico.
sexta-feira, 7 de abril de 2023
as mamocas da tap
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| by MMF |
segunda-feira, 31 de outubro de 2022
a mangueira
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| Imagem: Marinka |
segunda-feira, 30 de maio de 2022
aprendizagens
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| "A idade da muchém" by MMF |
Foi uma festa. Caçadores e pisteiros correram a levantar-me. Sacudiram-me a roupa, riam e cumprimentavam-me ao mesmo tempo.
segunda-feira, 25 de abril de 2022
terça-feira, 22 de março de 2022
assim não dá
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| "Xuba" by MMF |
sábado, 19 de março de 2022
o papá, a quarta mana e o anjo
| Ana e Manuel, Vilanculos, 1961 (foto da Aida) |
Assim nasceu a Ana Margarida, Xuxu para a família. No Dia do Pai, que sempre foi especial para os dois. E para a Aida, que também merecia os mimos reservados às mães nestes dias.
terça-feira, 8 de março de 2022
coisas de mulheres
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022
memória
| Marcelo, Mimi, Manuel, Maria Amélia, Marita, António Luís, Luís e Marieta |
sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
outros natais
| Muchi (mana mais velha), Aida Mãe e MMF |
| Pai Manuel a avaliar as hipóteses de reparação do matope das picadas moçambicanas |
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
dias da mãe
| "Day of the Angels" by MMF |
sexta-feira, 26 de novembro de 2021
a propósito de bruxas
| "Balelize III" by Marita Moreno Ferreira (acrylic on canvas, 100x100 cm) |
terça-feira, 12 de outubro de 2021
amália, amália e amália
| "Tragédia" by Rui Aço |










