sábado, 21 de abril de 2018

segredos do limão

Lemon Study I, by Marissa Volg
O sabor da casca é insuperável, o cheiro aceitável, a menos que misturado com outras substâncias de perfumaria. O fruto em si, muito bonito, digno da apreciação de leigos e artistas. Um vencedor, dir-se-ia, não fora o amargor que lhe vem de dentro. O sumo, que dizem fazer bem a quase tudo, é como uma vacina: experimenta-se e depois evita-se, para jamais nos enganar sob a capa de beleza que o esconde.
Há pessoas assim, como o limão, com segredos ácidos que, em doses apenas maiores do que uma simples e rápida prova, nos corroem. A sua maior virtude: ensinar-nos que não as queremos por perto.
Já o limão com açúcar dobra o enjoo, acumulando o ácido e o doce levados ao extremo. Faz lembrar lutas religiosas, guerras frias, amores e ódios que nos devastam. Vade retro
Quase suportável, o achar de limão. Mas não nos iludamos: para quê escolhê-lo, quando tantas outras combinações o superam?
Afinal, a vida é feita de escolhas, com muito sumo desagradável em forma de tentação. O diabo que os carregue, apre!

domingo, 15 de abril de 2018

uma questão de lógica


Por uma questão de lógica, se condenamos ataques e bombardeamentos, que sentido faz atacar ou bombardear quem faz o mesmo? Só se for o de abdicar do que achamos certo para descer de nível num jogo que, à partida, não se quer jogar.
Que sentido faz, na mesma linha lógica, condenar à morte quem mata? Ou ser a favor da pena de morte e depois condenar o aborto como um assassínio? 
Olho por olho e dente por dente é uma resposta de quem está acossado, de que não vê alternativas. No entanto, há sempre outra forma de ver as coisas e não é perpetuando uma cadeia de agressões que se vai à origem dos problemas para mudar o padrão, ou paradigma, que nos aprisiona numa realidade que não se quer viver.
Tomar partido também não resolve um conflito. Apenas adiciona mais peso a um dos pratos da balança, sem diluir o que divide, sem conduzir uma outra direcção.
Estaremos condenados a debatermo-nos ciclicamente com estes impulsos irracionais, em vez de reconhecer o medo pelo seu real valor, ou falta dele?

sexta-feira, 13 de abril de 2018

sexta-feira treze

"Friday and 13"

Nasci numa sexta-feira treze e nunca entendi a negatividade que a ela se associa. O treze é um número simpático e reduzido à sua expressão mais simples, dá quatro, o número do quadrado que sustenta as pirâmides, por exemplo. É sólido, representa fundações e outras construções mentais que muito nos aproveitam.
Usar o dia para assustar alguém é, no mínimo, uma fantasia de mau gosto. A maior parte das pessoas diverte-se a plantar sementes de superstição nos outros e isso não é muito saudável. Especialmente neste momento em que a nossa consciência alargada nos mostra que, mais do que nunca, devemos explorar todas as maravilhosas potencialidades que o nosso pensamento é capaz de imaginar. E que é possível pôr em prática para moldar o mundo de uma forma mais agradável e prazenteira.
A sexta-feira treze devia ser celebrada como um momento de viragem e de concretização, de reflexão sobre a força que podemos imprimir à realização dos nossos sonhos.
Reza a história familiar que, tardando a minha resolução em vir a este mundo, só me decidi depois de uma carga de elefantes, em plena Gorongosa. Ora, o elefante é um símbolo de boa sorte e também  de sabedoria, persistência, determinação, solidariedade, sociabilidade, amizade, companheirismo, memória, longevidade e poder. Por que razão haveria, então, de ver o pior da sexta-feira treze, com tantas características auspiciosas a ela associadas?
Sempre que chega uma sexta-feira treze sinto, invariavelmente, uma energia poderosa e alegre, apenas toldada pelos disparates que por aí se dizem sobre o dia. Que mal se pode ver num gato preto ou num guarda-chuva aberto dentro de casa? A não ser, claro, preferir explorar a adrenalina do medo e as suas pouco inteligentes consequências?
Abençoadas sextas, a treze e não só. A vida está sempre a presentear-nos com tudo o que precisamos para a transformar num carrossel de alegrias e as multiplicar em maiores benesses. E todos a podem ver dessa forma, em vez de desperdiçarem o pouco tempo que nos cabe aqui em infelizes futilidades.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

aqui na terra são demais

by Carla Sonheim

Que os outros não gostem de perder tempo a pensar, é lá com eles Se gostam de gastar as suas horas acordados a alimentar pensamentos que parecem tornados dentro das suas cabeças, também é com eles.
O que não está certo é imporem aos outros, sem nenhuma espécie de respeito ou contenção, esses frenesis desnecessários. E poluentes, que constituem um assédio indefensável e uma poluição que devia ser compensada com coimas agravadas e penalização nos impostos.
A liberdade de expressão não deve ser interpretada como uma autorização para massacrar os outros com toda a espécie de aleivosias que atravessam as mentes desestruturadas e com falta de ocupação meritória.
O discurso errático dos loucos é muitíssimo mais aceitável do que os disparates que a maioria das pessoas se entretém a debitar o dia todo. Quem tem medo do silêncio? Que verdades aterradoras tem ele para murmurar dentro dessas cabeças que enchem o espaço à sua volta de guinchos aflitivos de pânicos vários?
Por muita compaixão que se tenha, é difícil chegar ao fim do dia sem pensar um par de vezes em estrafegar uma dessas almas que mais parecem sirenes desgovernadas depois de uma trovoada.
Todas as escolas deviam introduzir, urgentemente, uma aula de reflexão obrigatória, com um programa intensivo de educação sobre o amor próprio e outros exercícios formadores de indivíduos mais racionais e elucidados sobre os terrores sem sentido.
Vozes de burro não chegam ao céu, bem sabemos. Mas aqui na terra são demais.

terça-feira, 10 de abril de 2018

epifania, epifania, epifania



O propósito maior de todas as coisas: ser o que se é. E tudo assim se resume, sem necessidade de tentar lapidar a realidade com trabalho mental desgastante e frustrante. Sem sabotar o curso natural da vida com expectativas que não passam de coágulos terroristas o simples e perfeito esquema de todas as coisas.
A humildade de não pretender entender tudo de uma só vez é um privilégio da inteligência. Temos uma vida inteira para saborear o vaivém das correntes e a vertigem das mudanças, um prazer que produz, na altura certa, todas as epifanias de que precisamos para cimentar a alegria do conhecimento.
Que mais se pode esperar de uma manhã de terça-feira?

quarta-feira, 4 de abril de 2018

indignação e refilices


A indignação é uma coisa boa, quando não é simplesmente uma refilice só porque alguém põe um sapato dois centímetros para o lado que não é o do costume. A refilice é o mantra de quem anda aborrecido com alguma coisa e resolve despejar assim o saco.
Em vez de se utilizar em questões de fundo, como direitos e justiça, lógica e estabelecimento de limites, gasta-se habitualmente em manifestações menores de situações que não seguem as rotinas cegas que confundimos com a tranquilidade que nos é devida. 
A indignação também é uma arma de arremesso para quem tem um pendor especial para a manipulação das emoções alheias. 
O problema é que a maioria das indignações não é, na verdade, digna desse nome. São apenas resistências mal orientadas, com origem em preconceitos sem sentido.
Por exemplo, se alguém muda de opinião devido a um genuíno processo de correcção de pensamento, os habituais epípetos relacionados com a falta de carácter não se aplicam. Pelo contrário, transformam os seus produtores em reféns de um pensamento desajustado da realidade, ignorando a clareza de espírito elogiável que permitiu ao indivíduo evoluir de forma positiva no seu processo de entendimento do mundo e da sua constante transformação.
Não raro, inclusivamente, os enunciadores destas indignações são quem mais apregoa uma fidelidade inviolável a princípios e valores que, bem analisados, apontam por princípio para a sensatez do ajustamento ao evoluir das situações e da consciência.
Quando se deseja honestamente a mudança, para melhor, há que exibir coerência e aceitar que as suas medidas justas exigem flexibilidade para integrar novas soluções. Não há mérito algum em manter teimosamente as mesmas respostas a circunstâncias que não param de evoluir.
Haja a humildade de aceitar que a verdade está em aceitar que as velhas receitas têm de dar lugar a novas, sem medo de descartar certezas absolutas que se tornaram inadequadas.
O passado deixa-nos a memória e a aprendizagem das experiências, mas não a obrigatoriedade de aplicação das mesmas soluções para circunstâncias diferentes.
Antes da indignação devemos questionar os verdadeiros motivos que a provocam e convocar a abertura necessária para reconhecer e aceitar novas formas de pensamento e de acção. Sobretudo se reconhecemos a necessidade de mudança e transformação real.

cobras, lápis e paraíso


Toda a gente sabe que há cobras à espreita no jardim do Paraíso. Foi assim que caíram os papás da Humanidade. Também havia maçãs proibidas. 
Será possível imaginar um paraíso tão cheio de perigos e interdições? Não parece perfeito e muito menos obra de um Criador benevolente. Embora não documentado, o lápis da censura já devia andar a fazer das suas na altura.
Com um exemplo assim é difícil imaginar um mundo melhor e optar por práticas mais coerentes de liberdade de expressão. Qualquer dia nem uma pêra rocha de pode trincar sem verificar primeiro se há um fiscal de costumes por perto.
É mesmo possível que o espírito crítico e a lógica mais clara sejam subliminarmente influenciados por estas histórias contaminadas por dogmas que ouvimos desde crianças. É a educação imposta, na sua pior versão.
Seria mais justo educar para ir ao encontro do que hoje se sabe que são paradigmas mais saudáveis. Mas a educação dos dias de hoje tem uma lógica de mercearia, com o deve e o haver postos nas empreitadas para os edifícios e para o serviço de refeições, deixando para segundo plano os meros pretextos que são alunos e professores, bem como a troca de informação que nutre o conhecimento que muda mundos.
São investimentos armadilhados, sem retorno lucrativo enumerável, sempre na lógica do paraíso envenenado e para sempre adiado, como a cenoura que segue à frente do burro e que deve ser inatingível para o manter em movimento.
A mais fácil conclusão é a de estarmos perante mais um fenómeno de manipulação de informação nessa história do paraíso de que qualquer um pode tombar, provavelmente criado pelos órgãos de comunicação de massas da altura.
Assim se faz refém o futuro da Humanidade, com contos cheios de pontos acrescentados e dirigentes que são, afinal, homenzinhos de cinzento munidos de lápis azuis. Enquanto esperamos por melhores tempos e não pomos a lógica na linha.

terça-feira, 3 de abril de 2018

afinal, o prazer

"All about pleasure" by MMF
I have a place to die where I often stay, not for long and quite cautiously. It is my source and my true nature, but I also like it here where chaos is generated and we all can play the silly game we call life. Where else would I experience such a crazy, inebriating folly? [E. Mushul]

Tudo se resume ao prazer, ou ao desprazer. No final, bem vistas as coisas, a nossa balança das sensações é o que conta. Todas as situações são decididas na escala do que nos agrada ou do que produz desagrado. Uma vida simples, apesar dos floreados a que nos dedicamos para que tudo pareça mais o que realmente é.
O desprazer é tão consistente quanto o prazer. Somos tão capazes de lhe fugir como ratinhos frenéticos num labirinto em busca da saída. Que raio de mundo arquitectámos, nesta rede de impulsos e sensações arbitrárias com motivos camuflados em origens para já inatingíveis.
Fica a longa panóplia de prazeres para desvendar, dos divinais aos mais profundamente desagradáveis. E a nossa capacidade de criar inúmeras novas matizes para desafiar o tédio do conhecido.

domingo, 1 de abril de 2018

ovemos


É assim que se estabelecem as ideias feitas, com uma mão cheia de ovinhos simpáticos, decorativos e doces, tudo para dourar a pílula que, neste caso, é o coelho. Que vem carregadinho de ovos para as crianças, mas... Só para as boas, porque há criancinhas más e sem direito a festejar num dia para esse fim.
Claro que elas, com a sua clarividência natural, arregalam os olhos, confessam-se boas e o coelho lá as premeia com a desejável recompensa.
A moral da história é que existem sempre pessoas capazes de julgar e castigar as outras, que as crianças têm de ser todas boas, ou melhor, capazes de se fazer passar por tal para satisfazer um conjunto de julgamentos de valor imaginado como o adequado, mesmo quando só representam interesses parciais. 
Sobretudo, tenham medo, muito medo de desagradar aos outros. Um dia de festa não é para todos e para reestabelecer a comunhão entre todas as almas. É, pelo contrário, aproveitado lembrar que a espada continua pendurada sobre qualquer cabeça.
Na verdade, todos merecemos tudo, mesmo que às vezes não se faça muito para isso. Mas essa é a beleza da generosidade e da capacidade de ver além dos momentos em que erramos para aprender mais e mais. 
A meritocracia é sempre parcial, caprichosa e só se utiliza quando serve grupos de poder. Se nos agarramos a ela perdemos a visão de conjunto, em que reconhecemos o valor intrínseco de cada indivíduo.
Agora, ovemos: quantas mais vezes seremos capazes de estender generosamente uma guloseima a quem aparentemente não a merece, só porque queremos acreditar que também podemos ser melhores do que um coelho?

sexta-feira, 30 de março de 2018

porcos que são feios e maus

by David Archer (Australia), foto daqui
Se todos os porcos fossem cor-de-rosa, entendiam-se algumas confusões. Mas não são, por isso as confusões são ainda mais difíceis de entender. Se é que alguma confusão possui, na sua génese, entendimento envolvido.
Acontece que alguns porcos são transparentes, camuflados, envidraçados, vagos, enviesados. Outros, mais simplesmente, limitam-se a ser o que são, sem mais danos ou enganos associados.
Porcos que nada têm que ver com os orwellianos personagens, cuja estimativa de valor se firma nos deméritos da valorização alheia. É mais uma constatação que nos faz pensar por que razão algumas religiões sugerem que sejam retirados da cadeia normal de alimentação.
Talvez por isso mesmo, dado os tempos que correm, e com a exploração agropecuária a dissolver as qualidades da nossa atmosfera e as propriedades dos nossos corpos, seja de ter em consideração alguma causa e efeito plasmada na bagunça e inversão de valores a que se assiste.
Nem todos os porcos são maus, não senhora. A questão não se põe em termos da mais normal e simples polarização dos termos.  A dimensão real em que se movimentam é que perfaz uma agenda completamente estranha às demais espécies. Cada macaco, desculpem, cada porco no seu galho, seria a consideração mais adequada. O que faz correr um porco nunca será exactamente o mesmo que faz correr uma cobra ou um jacaré. Apesar das aparências, há diferenças, nem que sejam de puro método.
Os patos fazem tanto ou mais chinfrim do que os porcos, no entanto, chamar pato ou porco a alguém não é a mesma coisa. 
Também não é simpática a apropriação machista do mealheiro, se é que realmente surgiu da possibilidade de uma porca ter capacidade para produzir seis milhões de bácoros em dez anos. O que é que o inseminador tem que ver com isso? Já a versão da argila pygg é muito mais credível. No entanto, é significativa a associação ao acumular de riqueza, em substituição da natural abundância expectável em todas as circunstâncias da vida.
Têm mesmo de ser feios e maus os porcos deste mundo? As versões rosa e com asinhas são aparentemente mais simpáticas, mas todos sabemos que a chantagem emocional também tem o seu preço e nem o rosa nem as asas são eternos. Providenciemos, pois, cautelarmente, em relação aos porcos.
Também haveria algo a dizer sobre os porcos azuis ou os verdes, mas fiquemo-nos por aqui.

quarta-feira, 28 de março de 2018

a beleza da democracia


A beleza da democracia é que é um conceito que apenas depende de nós. São as nossas ideias, e até a falta delas, que criam limites ou uma infinidade de soluções dentro desse conceito. Como nas relações, na forma como entendemos viver a nossa vida, é a nossa noção de liberdade que se manifesta, por excesso ou por defeito, para estabelecer os contornos que desejamos serem a marca distintiva do que realizamos.
Grupos, países ou locais são fruto do uso que damos às nossas escolhas. Os ideais, por melhores e mais atraentes que os pintemos nas nossas cabeças, só se mostram nas nossas acções na medida  em que nos permitimos pô-las em prática.
O líderes que escolhemos, não têm de impor as suas ideias, na medida em que são sempre insuficientes em comparação com o vastíssimo leque das de quem os segue. O seu trabalho é ter a visão de conjunto que permita unir e ampliar as opções de todos.
Cascais é a nossa terra, o nosso corpo colectivo, o nosso porto de abrigo e a possibilidade sempre existente de moldar a nossa vida pelos limites cada vez mais extensos que possamos imaginar. Não esperemos que pequeníssimos claustros de cidadãos, por falta de imaginação de tempo ou de experiência prática do que pode ser cada vez mais perfeito, limitem a potencialidade de transformar este território nos nossos sonhos e ideais.
Os partidos não definem a qualidade de vida que nos caracteriza. Somos todos e cada um de nós que definimos essas entidades colectivas e a experiência que podem trazer à nossa existência. Um grupo político, esvaziado de ideias e do coração de quem o compõe só pode traduzir uma realidade empobrecida para o concelho e para os seus munícipes.
Tudo começa e acaba e nós, na força com que acreditamos que podemos criar uma realidade cada vez mais rica e adequada às nossas expectativas, e na coragem das nossas acções nessa direcção.
Todos os dias são oportunidades para mudarmos uma areia na engrenagem e somos duas centenas de milhar de possibilidades para que isso aconteça. Acham pouco?

domingo, 25 de março de 2018

nem por sombras?


Come gather 'round people / Wherever you roam / And admit that the waters / Around you have grown / And accept it that soon / You'll be drenched to the bone. / If your time to you / Is worth savin' / Then you better start swimmin' / Or you'll sink like a stone / For the times they are a-changin'. // Come senators, congressmen / Please heed the call / Don't stand in the doorway / Don't block up the hall / For he that gets hurt / Will be he who has stalled / There's a battle outside / And it is ragin'. / It'll soon shake your windows / And rattle your walls / For the times they are a-changin'. // Come mothers and fathers / Throughout the land / And don't criticize / What you can't understand / Your sons and your daughters / Are beyond your command / Your old road is / Rapidly agin'. / Please get out of the new one /If you can't lend your hand / For the times they are a-changin'. (Bob Dylan, 1964)

Queremos todos mudança e todos nos assustamos com ela. Porque exige honestidade e clareza. Porque nos custa admitir essa parte do nosso carácter que se acomoda às coisas que estão mal e nas quais tomámos parte, nem que seja pela recusa de tomar uma decisão diferente.
Em cima do muro fica o inferno, aquilo que nem é sim, nem é não. A dificuldade em tomar uma posição que, se é certa, mesmo assim suscita a dúvida e nos atormenta; e se é não cria a culpa que nos esmaga.
Os tempos, ou as circunstâncias mudam, mesmo assim. Somos mais de sete biliões de pessoas a tomar decisões, e aqui estou a partir do princípio simplista de que só nós contamos para esta insana complexidade de possibilidades que tudo e todos afecta. Mesmo assim temos a pretensão de saber o que andamos a fazer e que podemos prever um mínimo de desfechos lógicos.
Há, apesar disso, alguma lógica e possibilidade de coerência neste inocente estado de consciência a que nos remetemos? Nem por isso, nem por sombras.
O mais engraçado é que, apesar disso, com mais ou menos consciência, fazemos uma cara séria e assumimos uma postura de quem sabe exactamente o que está a fazer. 
E a mudança continua, independentemente da nossa vontade e do nosso contributo. Porque apenas a consciência muda, na nossa contemplação desta contínua e inatingível complexidade de acções e efeitos.
Portanto, podemos ser exactamente que quisermos, ou sofrer por acharmos que não. Nada disso importa realmente para o resultado final de todas as coisas, neste insignificante papel que desempenhamos individualmente. 
Por outro lado, uma pequena pedra deslocada do seu sítio, pode fazer desabar uma montanha. E as montanhas não estão à espera disso, claro. Por isso, que garantias eternas nos dão também as montanhas, se mais tarde ou mais cedo desabam como tudo o que esmagam? 
As probabilidades são idênticas para grandes ou pequenos e nisso é que está a justiça de tudo.
A memória é uma espécie de manual do jogo da vida, como esta letra do senhor Dylan que, há cinquenta e quatro anos, preconizava a mudança e que tão bem se aplica aos nossos tempos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

livros, redes e conhecimento

foto MMF

Esta imagem de uma exposição de há anos, no Porto, de livros guardados atrás de grades, numa visualização daquilo que sempre foi o destino, ou fado, destes objectos e do conhecimento, das ideias que armazenam através do tempo.
A leitura é sempre um passeio novo, por terrenos desconhecidos, virgens e revigorantes. Amplia a nossa visão do mundo e das possibilidades sempre renovadas que os outros nos descrevem. A forma com pensam exemplifica a grande variedade de pensamentos que sete biliões de seres humanos praticam neste planeta a todo o instante, criando infinitas possibilidades e combinações.
Não é fácil imaginar esta rede natural de conhecimento que funciona sem parar e sem ajuda de outro instrumento que não o do nosso pensamento. É a maior rede sem fios do mundo, gratuita, completa e verdadeiramente livre.
Com alguma ironia, as redes também simbolizam prisões, divisões, limites que pomos em prática. Quando abandonamos a visão geral para nos escondermos atrás de protecções imaginárias que, afinal, nos separam com a sua segregação artificial.
Quando falamos uns com os outros, se nos abstrairmos das convenções sociais que nos engaiolam muito mais do que qualquer rede de metal, a troca de conhecimento e de experiências é motivante e libertadora.
Ao ler, entramos também em contacto com o registo escrito de conhecimentos e ideias de quem não está fisicamente presente na nossa vida. Ou quando escolhemos qualquer outra forma de expressão de um ser humano, artística, quotidiana, pensada ou espontânea. 
Há sempre algo extremamente motivante na percepção deste quadro magnífico de que fazemos parte e que impulsiona a nossa experiência neste mundo. Qualquer coisa que nos faz pressentir a divindade colectiva de que fazemos parte. A pertença superior que nada nem ninguém pode alguma vez anular. 
Tudo o resto é ilusão e birra de quem presta mais atenção ao que se passa com os outros do que ao que traz dentro de si.

terça-feira, 20 de março de 2018

página cinco

página 5
Ouvi ontem esta expressão que me encheu as medidas. Refere-se a quem, sabe-se lá por que razão, lê livros, compêndios ou enciclopédias de informação pela rama. Até à página cinco. O que diz parte da introdução ou do primeiro capítulo. Sem jamais chegar a ler a obra completa, muito menos a informação que sustenta a ideia, o contexto, a arquitectura mental em que se insere.
O que importa, para uma imensa parte das pessoas, é a descoberta de um novo conceito que lhes desperta as asas da imaginação. Não necessitam da honestidade do aprofundamento do assunto, não as atrai todo a complexidade de pensamentos que lhes deu origem.
Basta-lhes adquirir um novo conjunto de palavras com que podem brincar, reproduzir como verdades irrefutáveis e impingi-las aos outros como a sua maravilhosa, e nova, filosofia de vida.
Poderíamos pensar que esses fragmentos de conhecimento, que no máximo, equivalem a uma falange cortada por mafiosos à mão de um corpo inteiro, apenas correspondem aos cinco minutos de grau de atenção das pessoas que escolhem adquirir a informação dessa forma. 
Poderíamos ainda descartar a importância do facto de algumas pessoas acumularem essas falanges rapinadas a vários corpos inteiros constituírem um disforme corpo de informação e conhecimento em que as pessoas baseiam a sua vida.
Essa ideia é assustadora, mas real. Partilhamos o mundo e o conhecimento dele com um exército de falanges coladas com cuspo, sorrisos e beatíficas expressões epifânicas. Que, ainda por cima, muita gente difunde liberalmente e te mesmo a grande lata de reproduzir em workshops de dois meios dias como a solução para todos os problemas.
Ou seja, a página cinco é um pesadelo materializado com que convivemos diariamente. Encarar as coisas de forma leve não é o mesmo que encará-las com leviandade. Não admira que haja tanto disparate a produzir-se neste mundo.

segunda-feira, 19 de março de 2018

pai, filho e espírito santo

"Pai" by Paulo Paz


A velocidade dos desejos pessoais aumentou dramaticamente. Talvez porque a efemeridade de tudo está cada vez mais presente e visível nas nossas vidas. Não é como o fast food a substituir as longas jornadas do ser humano para alimentar o corpo físico. Mas é uma premência muito clara sobre as nossas necessidades reais. Haja tempo para entender que a rapidez aqui tem que ver com a obrigatoriedade de evoluirmos para dimensões mais modernas da nossa existência.

"Filho" by Paulo Paz
Estamos habituados a uma linguagem linear, a ir de a para z, do preto ao branco, do menos para o mais. No entanto, se quisermos sobrepor todas essas premissas e multiplicá-las tantas vezes quantas nos apetecer e nos lembrar-nos, explorando cada grau de cada uma delas, e ainda considerar que todos podemos fazer o mesmo, apercebemo-nos da complexidade que rege a nossa realidade. Somos uma multidão a decidir a todo o instante sobre os caminhos da nossa vida. A maior parte do tempo, irados e frustrados pela insuficiência da nossa vontade em se sobrepor às demais. A presunção da nossa divindade, moldada pelo defeituoso conceito da unicidade que praticamos, dá cabo da nossa paciência. Custa-nos substituir a nossa omnipotência de deusinhos tiranos pela mais democrática ideia de peças interligadas do puzzle divino que exige cooperação para se manifestar plenamente.

"Espírito Santo" by Paulo Paz
No final tudo se resume à rendição a uma sabedoria maior, ao espírito livre de todos os pré-conceitos do que somos, individualmente e livre de todos os limites de grupos, clubes e associações que nada mais são do que frágeis imitações do puzzle maior a que pertencemos. Na liberdade que nos cabe para nos ligarmos a esse espírito maior, que partilhamos de facto, está o nosso poder. Apenas aí reside a chave de toda a realidade, sem limites, sem mal-entendidos.

quarta-feira, 14 de março de 2018

escolas livres de excessos


Quando se mexe nos contratos de fornecimento de refeições as escolas, o ideal era mesmo ter a coragem de eliminar, pura e simplesmente, os alimentos que prejudicam a saúde física e mental das crianças e dos jovens.
Estando provado que os refrigerantes, açúcares, fritos e alimentos excessivamente processados, o que raio faltará para que se assuma a necessidade de, nas escolas se proibir o consumo de bebidas e alimentos nocivos à saúde?
Será que o interesse das grandes empresas de sobrepõe com vantagens a um défice de desempenho escolar e a um futuro de maus hábitos, doenças e tratamentos ruinosos?
É uma vergonha, ou muita falta dela, que governantes que se afirmam conscienciosos e defensores do interesse maior dos cidadãos, não se comprometam definitivamente com a saúde e bem-estar dos mais novos, assegurando-lhes um futuro bem mais risonho e promissor.
Isto, claramente, sem prejuízo do livre consumo de toda a sorte de alimentos por adultos informados e apreciadores de açucares e de outras substâncias e paladares universalmente apreciados pelos bons garfos.
Mas não é deliciosamente aliciante pensar em novas gerações de crianças e jovens saudáveis e bem dispostos, com clara consciência de que a ingestão de alimentos menos adequados também é possível dentro de parâmetros mais adequados?
A educação também deve oferecer uma disciplina mais coerente e benéfica para os hábitos pessoais, orientando jovens e pais para uma maior consciência e melhores práticas em relação aos cuidados de saúde física e mental.
Eliminar excessos indesejados das cantinas escolares é uma medida semelhante à proibição de substâncias como o álcool e o tabaco. A indústria alimentar devia ser igualmente disciplinada para orientar a sua oferta adequadamente para as diversas faixas etárias e de acordo com a actual consciência de práticas nocivas à saúde.

sexta-feira, 9 de março de 2018

a liberdade do amor



Falemos hoje de amor. Não a baboseira romântica construída a partir dos contos de fadas ou do felizes para sempre. Ou da fragilidade que nos leva a procurar no outro uma metade, em vez de o entender como uma das muitas peças de um puzzle que continuamos a ignorar e a adiar como uma visão mais realista das nossas relações.
O que procuramos nos outros é uma partilha, uma comunhão, a confirmação de que fazemos parte de um todo indissolúvel. O que habitualmente estraga essa partilha de pares ou mesmo de grupos é a falta de consciência de que, na verdade, ninguém é dispensável no conjunto pela simples razão da riqueza que traz para cada um dos outros. No entanto, a ilusão criada pelo marketing dos amores e dos clubismos exploradores dos limites discriminatórios, tudo reduz a um campo minado de desilusões e fasquias impossíveis.
O amor destas linhas pertence a uma outra esfera. A da dimensão do que nos faz sentir bem, que nos enche de felicidade e esperança. É uma forma de estar que todos os dias sofre duros golpes face aos desinteressantes preconceitos associados ao que nos vendem como amor.
Falamos de escolhas que nos afastam do medo, da paralisação de imaginar o pior e não agir sobre o nosso acertado instinto. De perceber que os outros só nos ameaçam porque nos deixamos levar por todas as parvoíces que também nos martelam a cabeça.
Este amor é a coragem de agir, de acreditar que há sempre uma outra forma de ver as coisas e que, experimentando-a, se multiplicam as nossas hipóteses de acertar e colher os frutos de coisas diferentes.
Hoje, a escolha é a do conhecimento, a desse amor-consciência que nos energiza e transforma a nossa condição de bichinhos assustados na versão, muito mais interessante, de criaturas capazes de viver mais livremente o seu verdadeiro potencial.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

aos encontrões na luz

foto MMF
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem oito, nem oitenta. Nem toda a gente é completamente má, nem completamente boa. Vivemos de luz e escuridão, mas isso também não quer dizer que se saiba exactamente o que se anda a fazer. Às vezes, na sombra até nos orientamos e a maior parte das vezes, na mais completa luz, parecemos uns carrinhos de choque aos encontrões uns aos outros.
Outras vezes as coisas passam-se à nossa frente e não queremos meter-nos, julgando que assumimos assim uma posição de neutralidade. Nada mais errado. Porque uma decisão é uma acção e, neste caso, deixamo-nos nas mãos das decisões de todos os outros. Isto porque, fazendo parte de um todo em que as decisões determinam os resultados, e são um efeito imparável, a nossa neutralidade determina apenas que são as acções dos outros que vão moldar esse efeito, não as nossas.
A Terra e tudo o que nela existe, incluindo a pretensiosa Humanidade, é um todo em constante movimento e evolução, determinada pelas acções e decisões de tudo e todos. A neutralidade é uma ficção que apenas permite que as tomadas de posição dos outros definam o rumo das nossas vidas.
Na verdade, quando nos recusamos a decidir é como se estivéssemos convencidos que podemos manter-nos no meio do turbilhão da corrente sem sofrer os seus efeitos.
A cada um o seu tipo de masoquismo preferido, pois até isso é perfeitamente natural e defensável, ou não seria o que nos esforçamos tanto por fazer a todo o instante.
E o que é que acontece quando tomamos consciência disso? A maioria dos alemães acreditou piamente que não se manifestando contra as acções dos nazis a sua consciência estava salvaguardada. Isso modificou a qualidade dos resultados que vitimaram milhões de pessoas por todo o lado?
Quando as pessoas afirmam que não se metem em política, quando não vão votar, quando não assistem às sessões públicas dos seus órgãos de poder local, não se informam sobre as deliberações que vão determinar o lixo que têm à porta de casa, os impostos que pagam para não terem onde estacionar sem pagar, onde se tratar em condições dignas ou como deixam de poder ver a beleza natural da terra onde vivem porque alguém decidiu ganhar dinheiro com bolhas imobiliárias. Quando acreditam que nada disso lhes interessa ou contribui para a sua felicidade, os resultados são os que aparecem nos seus sonhos?
Acreditam sinceramente que vão poder respirar com a cabeça enterrada na areia? Acreditam que o facto de sonharem acordados é suficiente para alcançar o paraíso?
Boa sorte. Viver como escolhos arrastados pelas tempestades deve ser, realmente, o Eldorado da Humanidade.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

curto-circuitos de desentendimento


Falar sem para não é ser comunicativo; pelo contrário, é tentar evitar a comunicação. Andar sempre atrás dos outros a despejar episódios da vida própria e da alheia também não é partilhar ou socializar é massacre levado a cabo por gente que não faz a mínima ideia de como se pode estar com os outros.
Também não é sinceridade despejar tudo o que passa pela cabeça em qualquer circunstância; é apenas falta de senso comum e muito má educação.
Se as pessoas tivessem aproveitado mais a escola, evitariam muito do caos que se desenrola nas suas vidas. Por exemplo, aprendendo um pouco mais de gramática e a entender a estrutura da língua que falam e que é, afinal, um espelho da forma como pensam.
Muitos dos atritos e conflitos actuais são, sobretudo, resultado da fraquíssima compreensão da língua que a maioria esmagadora dos indivíduos tem. Não são capazes de interpretar correctamente o que ouvem ou lêem, não compreendem frases idiomáticas e, além da cultura, falta-lhes imenso vocabulário. Não lendo, além da informação que não têm, também não ganham prática de pensar de forma correcta, nem de estar em contacto com ideias e a forma como se formulam.
O resultado é, numa era de comunicação avassaladora como a que decorre, um constante ruído de mensagens que a maioria esmagadora das pessoas não tem capacidade para decifrar.
Para compensar isso, a resposta mais utilizada é criar mais ruído pessoal, como um eco e como alguns fazem quando, em presença de quem não fala o mesmo idioma, aumentam o volume da emissão de voz à laia de tradutor automático.
Ruído, sobre ruído, sobre ruído. Calem-se. Pelo menos o tempo suficiente para entenderem o imenso valor do silêncio. Para o sentirem e compreenderem a paz e a clareza que traz.
Se possível, comprem uma gramática pequenina e leiam duas páginas por dia. Alguma coisa há-de resultar do exercício que não se deram ao trabalho de fazer na escola.
Ter uma multidão barulhenta sempre agarrada aos novos meios de comunicação, sem capacidades básicas para os utilizar, não faz do conjunto uma sociedade mais informada. O retrato mais honesto é o de um gigantesco armazém de aparelhos em constantes curto-circuitos de desentendimento.

domingo, 21 de janeiro de 2018

voo cego

"snake dream" by Marita Moreno Ferreira (pen on paper)
Há alturas em que tem mesmo de ser assim: largar a pele que já não nos serve e abraçar uma nova, pronta para recomeços e experiências diferentes. 
Sonhar com estas criaturas é um desejo expresso de renovar a vida e as ideias feitas que alimentámos durante anos. Reconhecer que se está consciente e farto dos velhos métodos. Uma declaração de que se está pronto para uma inebriante e poderosa lufada de ar fresco.
Venha daí o tornado e aceite-se o voo cego que se vai apoderar de nós.

sábado, 20 de janeiro de 2018

vida com escamas

Os filmes de acção têm aquela característica VS (Vida Selvagem) ou NG (National Geographic) em que se anda sempre a correr para não se ser comido, morto, torturado ou aniquilado. São essencialmente filmes de terror em que nos apresentam um personagem simpático com que nos identificamos e depois põem perante um isco e obrigam a esbaforir-se em tentativas de sobrevivência até ao final da história.
Na vida real não é preciso inventar tramas e subtramas para navegar num mar de angústias de sobrevivência. Seria talvez mais prático encarnar nas escamas de um peixinho e abreviar o sofrimento para o nível não foi desta que fui comido e ui, fui comido. Níveis mais simples e menos cansativos. Se calhar, até com menos consciência VS e NG.
Na verdade, a forma de vida actual parece desenhada para nos lembrar que estamos apenas num nível VS e NG absurdamente sofisticado. Não satisfeitos com todos os imprevistos e perigos naturais da nossa viagem por este planeta, ainda tivemos o trabalho de inventar entidades colectivas e virtuais que nos perseguem, exploram e ameaçam a todo o instante, protegidas por mais leis e ideias feitas que nunca nos passaria pela cabeça imaginar como dignas de nos definir como indivíduos.
Chamamos-lhe civilização, cultura, desenvolvimento, mas... São apenas viagens de peixes graúdos e, sinceramente, muito mais estúpidos do que os mergulhos dos peixinhos que só esperam sobreviver um ou dois segundos mais do na escamação anterior.
E será que somos, como eles, capazes de apreciar simplesmente o prazer de um mergulho no desconhecido? Claro que não. Nem isso nos parece suficientemente atraente na ilusão de que somos todos fantasticamente inteligentes e capazes de controlar o filme das nossas vidas.
(Enganei-me no guião; este é, evidentemente, o de uma comédia.)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

ouvem os passos?

foto MMF
Parece que vem alguém atrás de nós... Ouviu os passos? 
Acontece com frequência, quando se caminha pelo passadiço da duna da Cresmina, ouvir o barulho das tábuas a ceder sob o peso de quem por ali anda.
O curioso é que, muitas vezes, ao olhar para trás para confirmar que vem gente e ceder a passagem, não está ninguém próximo e o passeio continua, como se nada se tivesse passado.
O fenómeno pode repetir-se várias vezes durante a caminhada e, a menos que as alucinações auditivas façam parte da rotina destes passeios, não parece haver qualquer explicação racional para o som dos passos que seguem os caminhantes.
Certos locais parecem coleccionar histórias fantásticas e nem sequer lhes falta a imaginação popular a embelezar alguns factos menos comuns que lhes são característicos.
A Cresmina parece começar a desvendar uma vida muito própria, com este tipo de singularidades. Se conhece alguma, faça o seu relato e contribua para desvendar os seus mistérios. Pelos vistos, há mais do que os olhos vêem...

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

continuem a sonhar

foto daqui
Nos idos anos 80, quando ainda era a única via de comunicação entre Lisboa e Cascais, alguns dos troços da belíssima Estrada Marginal estiveram sob ameaça de colapsar devido à erosão provocada pela água do mar.
A construção da autoestrada de Cascais, a partir de Caxias, foi acelerada para acautelar um iminente corte da circulação rodoviária. Na década de 90 a A5 passou a ser a grande alternativa à Marginal.
Agora, por causa do estado degradado da ligação ferroviária da Linha do Estoril, o grande plano é dedicar uma faixa exclusiva da autoestrada aos autocarros.
No entanto, alguns dos defensores dessa medida são os mesmos que se propõem construir mais uns fogos descaracterizados à entrada de Cascais, aumentando com isso a circulação automóvel nuns milhares de unidades, sem outras preocupações que as de 'plantar' mais imobiliário numa das zonas nobres da vila.
Dentro do mesmo obscuro raciocínio surge a venda do antigo hospital de Cascais para acolher o primeiro pólo universitário privado de medicina do país. Numa zona já há muito saturada em termos de circulação e estacionamento.
Farão estas medidas sentido para o benefício dos munícipes? Que capacidade real tem o centro histórico da vila para sustentar este tipo de projecto, quando estudos feitos se pronunciam contra as consequências do mesmo?
A quem interessam estes projectos megalómanos que enchem Cascais de betão e agravam as condições de vida de todos?
Não seriam estes projectos, e outros, como a mega escola de Economia, à beira-mar de Carcavelos, mais úteis no interior do concelho, onde o investimento teria um efeito bem mais benéfico para as populações, diminuindo as assimetrias em relação ao litoral?
Por que razão os cidadãos de Cascais não se pronunciam sobre estas questões, deixam vazios os lugares destinados ao público nas sessões camarárias e da Assembleia Municipal, vertendo todas as escolhas para as mãos de quem devia proteger os seus interesses mas, pelos vistos, não o faz?
Acham que depois destas e de outras aberrações decisórias os turistas vão continuar a chegar aos magotes para visitar o inferninho em que a Costa do Estoril se vai transformar?
Continuem a sonhar...

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

pequenos e grandes náufragos



Uma vez tive de explicar o que era isso da alma do fado, a amigos de diferentes partes do mundo, veio-me a lembrança deste poema de Cecília Meireles (Naufrágio), musicado por Alain Oulman e cantado por Amália.

Pus o meu Sonho no navio / E o navio em cima do Mar / Depois abri o Mar com as mãos (com as mãos) / Para o meu sonho Naufragar // Minhas mãos ainda estão molhadas / Do azul, (do azul) das ondas entreabertas / E a cor que escorre dos meus dedos / Colore as areias desertas // O vento vem vindo de longe / A noite se curva de frio / Debaixo d'água vai morrendo / Meu sonho (vai morrendo) dentro do navio // Chorarei, quanto for preciso / Para fazer (para fazer) com que o mar cresça / E o meu navio chegue ao fundo / E o meu sonho desapareça // [Depois tudo estará perfeito / Praia lisa, águas ordenadas / Meus olhos secos como pedras / E as minhas duas mãos quebradas]

Era o único que tinha na memória, por mor de se me ter atrasado um pouco a Portugalidade. Nada e criada em Moçambique, o género musical era-me quase tão estranho como aos ouvidos de outras nacionalidades. Mas esta letra em particular, que me encheu de incredulidade, ficou para sempre.
A sua tradução provocou a mesma reacção nos meus interlocutores. Em conjunto, interrogámo-nos sobre o possível sentido de ter um sonho e afundá-lo no mar. Ou em qualquer outro local.
Isso, ou a tremenda derrota que habitualmente se canta em muitos fados, como característica de um povo de que se diz ter dado novos mundos ao mundo, é um conceito estranho, ilógico, quase inexpressível.
Mais tarde aprendi a apreciar a fantástica capacidade portuguesa para abraçar todos os extremos, tão ilogicamente quanto possível, o que é, no fundo, uma forma de exprimir a grande tendência nacional para a aceitação.
Pelo meio fica o fado, às vezes brejeiro e leve, outras vezes trágico e desesperado. Ficam essas pessoas que apreciam a vida e a sua dualidade, expressa em poesia e música, ou choro e luto, nas ondas que a vida traz.
Queiramos ou não, o nosso fado são esses sonhos e esses naufrágios que endeusamos num género musical que tão depressa nos ensombra com tragédias, como nos empolga em fantasias.

sábado, 2 de dezembro de 2017

lua cheia


Hoje é dia de lua cheia. Ainda não decidi se vou virar bruxa, lobanil ou rã. Ou, mais simplesmente, se deixo o cardápio em aberto. Se dividir convenientemente a noite, osso ser tudo. Se não me perder para sempre nos prazeres de cada personagem...
É um erro recorrente na nossa vida, acharmos que devemos permanecer um determinado tipo de personalidade, só porque confundimos isso com força de carácter. Mas não é nada disso. Devemos perder o medo de mudar as facetas da nossa personalidade e deixar de exigir aos outros o mesmo.
Hoje é dia de lua cheia e de começar de novo. Hoje e sempre, comecemos muito e vejamos o que dá mais certo. E enquanto dura, vida doçura.

domingo, 19 de novembro de 2017

água e equilíbrio

Foto Mafalda Mendes de Almeida
Não se previnem secas deixando de regar jardins ou cortando a água às fontes. O deserto não pode tornar-se ainda mais árido porque falta a água. Ou melhor, a água não falta. Falta a vergonha de admitir que se faz com água o mesmo que se faz com as grandes fortunas, acumuladas nas mãos de um punhado de gente a quem falha o entendimento do equilíbrio de todas as coisas.
Faz algum sentido que pelo menos setenta por cento do corpo humano seja água e tenha surgido dessa forma num mundo com escassez da mesma? 
Também não faz sentido que as pessoas que se elegem para defender os interesses de todos não expliquem detalhadamente por que razão se fecham poços se proíbe a livre utilização de água e se esconda a informação devida sobre as reservas naturais de água.
Ou que não se eduquem as pessoas de forma a saberem gerir os recursos naturais nas suas casas, jardins, ruas, vilas, cidades e países.
Sobretudo, não se fecha a torneira para as zonas verdes para criar ainda mais hostilidade climática e desequilíbrio.
Quando é que se começará a exigir dos governantes que liberem a água dos lençóis freáticos, que não é nem dos governos, nem das empresas que escolhem para os/nos explorar? Quando se exigirá que além de uma aposta maciça na educação, implementem mais zonas verdes em todo o lado, cisternas e outros sistemas de recolha e tratamento de águas, para benefício comum e imediato de todos?
Em vez de secarem propositadamente o planeta, a missão de qualquer governo é fazer tudo ao seu alcance para evitar a seca que nada mais é do que o reflexo de todos os abusos que se habituaram a cometer sobre pessoas e espaços comuns.
E se um governante faz questão de nos assustar sobre este tipo de calamidade, sem qualquer proposta concreta, então faz parte do problema e deve ser erradicado como qualquer seca, crise e malfeitoria que se abata sobre a cabeça de todos.
A água é um bem de todos e todas as medidas que isso contrariam devem ser encaradas como um crime grave contra a Humanidade. Haja vergonha e mais acção concreta para manter um equilíbrio que nos é devido.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

o inquilinato tonto

Biscaia by MMF
Vimos a este planeta como uma mão cheia de terra, que usamos até o abandonar. Aqui dependemos da nossa ligação a todos os elementos para sobreviver. Os nossos pulmões de nada servem sem as árvores e outras plantas, o nosso corpo não funciona sem água e comida. E quando nos vamos embora, essa mão cheia de terra regressa à Natureza, ao seu estado primordial.
Esquecemo-nos com frequência do que somos realmente e não nos chega o que temos todos os dias à nossa frente. Inventamos uma espécie que gostaríamos que fosse única e atribuímos-lhe uma personalidade que imaginamos mais atraente do que a matéria de que somos feitos.
Se os nossos primeiros antepassados tivessem um vislumbre do que somos agora ficariam estupefactos com a ficção em que se tornou a nossa vida. 
Ficariam incrédulos com a exploração da água e das fontes de energia, que são do planeta e para uso de todos os punhados de terra existentes, porque nunca foram de ninguém, nem poderão jamais ser. Tentariam chamar-nos à razão sobre os instintos de posse e os loucos conceitos de propriedade que desenvolvemos. Como podemos arrogar-nos esses atributos, se para começo de conversa só estamos aqui de empréstimo, por umas escassas dezenas de anos e para seguir depois viagem?
Como seria possível entenderem o inferno em que transformámos a nossa passagem pelo planeta, com leis e regulamentos cada vez mais intrincados e disparatados, por não terem em conta a verdadeira natureza da nossa estada aqui?
Que sentido poderia possivelmente fazer a educação que recebemos de nascença, de uma identidade cega para o nosso planeta hospedeiro e para com a sua abundância e generosidade, que desbaratamos com a alucinação das medíocres ideologias que vamos construindo à medida dos nossos pequeninos desejos de posse?
A Terra não tem problemas e sobreviverá a todos os atentados que nela cometemos. Quando tornarmos a nossa vida insustentável aqui, retomará tranquilamente o seu equilíbrio e aguardará novas visitas, sem medos tontos de aniquilações várias.
O planeta também tem a sua alma/ânima e não se sustenta de dúvidas existenciais. Essas ficam para os seus destituídos inquilinos ocasionais, com as suas fúteis pretensões de poder e domínio sobre a matéria.
Como pode alguém pretender dominar um planeta, se não consegue perceber que faz parte dele?

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

tédio, tédio, tédio

"Spiritual pollution tv" by Ashoka
Como se não bastasse a confrangedora exibição de estupidez de que se compõem os intermináveis anúncios publicitários dos dias de hoje -- a sério, acreditam realmente que os consumidores são tão estúpidos como os conteúdos com que supostamente os vão induzir a comprar mais? --, há ainda a completa gonia de passar de canal para canal e assistir a 99 por cento de filmes de teor policial, crimes e violência. Sem escolha possível, assinando nove ou mais de trezentos canais.
Sem falar da anormalidade de programas sobre futebol -- nenhuma outra modalidade tem direito a qualquer tipo de programa de interesse, a menos que sejam os Jogos Olímpicos e outros eventos com bastantes direitos de transmissão garantidos.
Que tipo de direcção de programação acredita realmente que está a prestar um bom serviço, público ou privado, alimentando este tipo de tédio mental? Que culpa têm as pessoas de que haja gente muito limitada a escolher os conteúdos de todos os canais de televisão? 
Com um pouco de sorte, alguém um dia se lembrará de sacudir o marasmo embrutecedor da televisão com apostas mais variadas e saudáveis, com vantagem para os consumidores e para os bolsos de quem acredita que merecem melhor.
A produção nacional segue, infelizmente, o mesmo caminho. Não por falta de criatividade das propostas, mas por completa cinzentice de quem decide e escolhe o que há-de ocupar os tempos de antena.
Para quem acredita que um cargo de direcção tem prestígio, é difícil entender como conseguem prestar-se a tanta medriocridade.


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

cães selvagens na duna

Photo by Mafalda Mendes de Almeida

Começaram por ser abandonados na rua, os cães de grande porte que agora se refugiam na duna da Cresmina e se tornaram selvagens. Ainda hoje se avistaram dois, tranquilamente deitados ao sol.
O problema começa quando se junta uma matilha com pelo menos seis destes cães que se refugiam mos buracos e vegetação cerrada e buracos na faixa dunar que vai do Guincho à Costa da Guia, passando pela Quinta da Marinha.
São locais de lazer de que muita gente desfruta em passeios e visitas, sem suspeitar que a qualquer momento podem cruzar-se com estes animais que se habituaram a sobreviver sem a ajuda do homem. 
Passam a maior parte do tempo longe da vista dos humanos que, inicialmente, os acolheram nas suas casas e depois traíram a sua confiança largando-os na rua, quando deixaram de ter graça e a exigir mais do que os seus irresponsáveis "donos" acham que eles merecem.
Transformam-se assim em cães "selvagens", juntos numa matilha que por vezes assusta e ameaça quem caminha pelo passadiço.
Há meses que se alertam os rangers da Cresmina para a sua presença e se espera que uma equipa de resgate da Fundação Francisco de Assis consiga apanhá-los.
Com um bocado de sorte, evitarão os seres humanos de que aprenderam a desconfiar e, se tudo correr bem, ninguém terá de os enfrentar numa situação mais extrema.
Ficam as óbvias perguntas: não haverá mais a fazer do que aguardar que uma equipa de resgate consiga deitar a mão a estes cães? E que lhes acontecerá depois de serem "resgatados"? Estarão tomadas todas as medidas e cautelas para prevenir encontros indesejados com estes animais que também são vítimas involuntárias dos caprichos humanos?

domingo, 5 de novembro de 2017

deliciosos domingos

photo by Mafalda Mendes de Almeida
O que faz do domingo um dia tão delicioso? O pequeno-almoço na cama ou a sorna sem rotinas obrigatórias? A preguiça ou um filme que se vê no sofá? As almoçaradas com a família ou amigos?
A resposta não está na convenção de um dia de descanso, como o sábado, sugerido pelas linhas-guia dos escritos religiosos. Nem no código do trabalho. Ou no ritmo hiper galopante do que consideramos ser as rotinas obrigatórias dos nossos dias.
Domingos ou outros dias para esticar preguiçosamente as pernas são dias deliciosos porque temos tempo para pensar e estar connosco. Para repensar os rumos que tomamos e fazer um balanço do que realmente vale a pena. Ou simplesmente para relaxar e sentir o corpo, respirar e outras pequenas coisas essenciais que não nos damos ao trabalho de respeitar todos os dias.
Mesmo assim há quem se infernize com a antecipação de voltar ao trabalho na segunda. Sem dar conta que reiniciar mais uma semana também é um poderoso gatilho para mudar e começar de novo se alguma coisa não está a dar certo.
Afinal, somos todos cientistas de primeira água. ocupadíssimos, durante toda a vida, a falhar e a voltar a tentar, a aprender com os nossos erros. Por isso, todas as segundas-feiras são para ser naturalmente contabilizadas como novas fases de testes. Aproveitemos.
Voltando aos nossos deliciosos domingos, que bem sabe ficar a olhar para o tecto na cama, demorar a decidir o que se toma como pequeno-almoço, o que vai deixar de se fazer porque, de repente, se tem consciência de que somos livres e podemos mudar as nossas escolhas rotineiras como nos apetecer.
O problema é que não temos noção disso todos os dias, vá lá saber-se porquê...
Domingos são dias de nada e, como o nada não existe, são dias de tudo. De todas as possibilidades em aberto. Já pensaram bem nisso enquanto se arrastam de um lado para o outro a pensar como podem aproveitar melhor a folga para ser tudo sem ser nada?
Santa Abacate nos dê muitos domingos deliciosos para entendermos de uma vez que é possível ser e ter tudo quando não nos apetece fazer rigorosamente nada. 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

mea, mea culpa

photo by Mafalda Mendes de Almeida
Há coisas que são demasiado sérias para se ignorarem. Como acções que nunca se devem permitir e silêncios incompreensíveis sobre elas.
Diz a lei que o respeito pelos representantes do povo é um dever. O que é de grande sensatez, visto que não é apenas o indivíduo visado que é desrespeitado, mas o conjunto de pessoas que o elegeu.
Por isso é tão dolorosamente estranho observar a forma como os vereadores da oposição são tratados em sede das reuniões da Câmara Municipal de Cascais. E como ninguém se manifesta contra isso.
É sabido que há uma coligação maioritária no poder, mas isso não justifica o desrespeito pela lei e pelos valores humanos que nos conferem dignidade.
Na última reunião do executivo, os vereadores da oposição foram sistematicamente tratados como caloiros ignorantes pelo representante da referida coligação, cuja obrigação é defender, no mínimo, todos os cascalenses, independentemente da sua orientação partidária.
Em vez de esclarecimentos, rebaixam-se os intervenientes, como se de cidadãos de segunda ou terceira classe se tratassem. Sem o mínimo sinal de reconhecimento do abuso verbal da parte de qualquer dos presentes, com assento na mesa ou entre o público.
Como se o bullying fosse aceitável num sistema que se quer democrático. Se não estamos num regime totalitário, que medo é esse que se sente em sessões públicas dos poderes locais? Que se passa no consciente e inconsciente colectivo dos cascalenses? Que paralisia é esta a que se assiste?
Na mesma sessão, um vereador da oposição foi três vezes chamado desonesto, como se um insulto desonroso fosse uma coisa aceitável numa reunião oficial e pública. Na última votação dos trabalhos, foi liminarmente recusada a declaração de voto a outro vereador, sem outra justificação que o "Não lhe dou a palavra" de quem presidia aos trabalhos. (Ver aqui.)
Não havendo capacidade de reacção pública a este tipo de conduta, resta concluir que, por força do hábito repetido do abuso, abusadores e abusados estão inexplicavelmente enredados em dúvidas  e confusões sobre o que é certo e o que é errado na generalidade.
Se a consciência de uns e de outros não encontra forma de reagir e prevenir estes factos, não nos resta outra hipótese senão a do bom exemplo:
  • Pedir publicamente desculpas pela injustiça perpetuada pelo conjunto de indivíduos que lidera a coligação maioritária no concelho, porque erradamente confundem o abuso de poder com a honra de servir com humildade e honestidade todos os munícipes. 
  • Pedir desculpas porque, pessoal e individualmente, somos todos responsáveis pela permissividade que infectou a auto-estima geral e permitiu que este tipo de situações tenham lugar.
  • Reiterar publicamente o compromisso de adoptar todos os meios ao nosso alcance para que não se repita o sucedido e se restaure a dignidade das reuniões do executivo que dirige os destinos da nossa terra e, por conseguinte, a sua imagem pessoal e pública.

A bem de Cascais.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

o que se sabe sobre as bruxas



O que toda a gente sabe sobre as bruxas é que elas são feias, têm narizes disformes e aduncos, verrugas nos sítios mais improváveis e que dão umas gargalhadas horríveis. 
Também se sabe que as mulheres ruivas são bruxas, como dizia a inquisição, que aqui por terras lusas se encarregou de matar umas dezenas de milhar de mulheres por essa razão. Só ficou por explicar que outras razões levam pessoas aparentemente normais a queimar mulheres, seja por que razão for.
É igualmente sabido que as bruxas são as que empatam as fadas, se bem que hoje já se tem consciência de que as fadas se fartam de empatar as bruxas, mas elas é que ficam com a fama.
Hoje, que é o dia das bruxas, temos de convir que elas são é umas grandes malucas, com propensão para voar por aí soltas em vassouras, coisa que mais ninguém se atreve a fazer. Vão passar a noite na maior farra, a beber e a comer como se não houvesse amanhã, a explorar prazeres que a maior parte de nós nem se atreve a pronunciar.
Será isso mau? Se fosse, mesmo a sério, por que usaríamos um dia, ou melhor, uma noitada de bruxas para nos lembrar que é possível enlouquecermos um bocadinho de vez em quando. Na minha opinião, o dia destas criaturas aparentemente horrendas celebra-se para provar que nem o horrível é permanentemente mau, nem o bonito é permanentemente bom.
É possível ver bom e mau em todo o lado e gozar um pouco à maneira dos que se permitem essa liberdade, apesar dos preconceitos e das moralidades apressadas com que gostamos de nos armar em santinhas e santinhos.
Ter um dia para fazer da farra o único sentido da vida é ou pode ser tão bom como ter outro para enterrar a cabeça no trabalho (e há muitos mais dias para isso). Não é por nos concedermos essa liberdade que perdemos a face e podemos continuar a ser uns chatos entediantes e entediados o resto do ano.
Portanto, feliz dia das bruxas. Farremos!

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

a vida moral dos autómatos


A vida moral dos autómatos é impecável: não saem da linha, cumprem as regras, todas as questões são a preto e branco, não se questionam, nem questionam ninguém.
Nenhuma resposta é desagradável quando se evitam as perguntas traiçoeiras, que põem em causa as regras estabelecidas, mesmo quando se revelam manifestamente inadequadas ao bem-estar de todos.
Ser um autómato feliz e moralmente resolvido pressupõe ver, ouvir e falar o menos possível. Desviar os olhos quando se observa um erro de programação capaz de arruinar décadas de felicidade contida em meia dúzia de parâmetros jamais verificados ou contestados.
A vida moral dos autómatos é plenamente justificada pelo que outros decidem como uma formatação adequada. Pouco mais é preciso para sustentar a sua felicidade.
Imaginem, no entanto, que determinadas situações, não planeadas ou simplesmente inesperadas, provocam um curto-circuito nestes compostos de regras pré-programadas. O resultado são autómatos a bater mal, desajustados das funções que lhes foram acometidas e, portanto, perfeitamente inúteis.
A sua condição de autómatos jamais lhes permitirá a liberdade de sacudir as regras e assumir uma nova programação. Ditaram-lhes a vida dessa forma, limitada, com um punhado de funções apenas, excluindo outras razões e alternativas.
Resta-lhes a reciclagem, a redução final às suas partes aproveitáveis. Sem consideração pelo resto que eventualmente poderão ser, pois o seu contrato prévio de funcionalidade neste mundo só contempla a utilidade para outros. Jamais a sua.
É tramado ser um autómato moralmente impecável.